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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Há dias que parecem escritos por uma mão estranha: metade luz, metade peso.


 

Hoje começou com uma despedida.
Uma colega que se foi, levando consigo aquela presença discreta que já fazia parte do cenário dos dias. Quando alguém parte, não é só a pessoa que desaparece. Ficam as rotinas quebradas, os pequenos gestos que já não vão acontecer. A vida, ali, mostra o lado cru: o de lembrar que tudo é passagem. A cadeira vazia que não mais será ocupada por ela. Os abraços da família que, fazem dela eterna.
Mais tarde, como quem equilibra a balança, trouxe-me um reencontro.
Um amigo que não via há algum tempo. Conversa solta, riso fácil, a sensação rara de voltar a um lugar onde já fomos felizes. Há pessoas que, mesmo depois de uma ausência, continuam a caber no mesmo lugar dentro de nós.
E depois houve a esplanada.
Um homem aproximou-se e perguntou se podia comprar um cigarro.
Não pediu. Perguntou se podia comprar. Aquilo ficou-me atravessado no pensamento. Que vida é esta em que alguém tem de ganhar coragem para abordar um estranho por causa de um cigarro?
Sentou-se. Pediu um chá de camomila.
E eu fiquei ali, a pensar nas voltas silenciosas que a vida dá às pessoas. Na dificuldade que,às vezes,mora dentro da dignidade. Porque naquele gesto não havia miséria,havia educação. Havia humildade. Havia um cuidado quase antigo em não incomodar demasiado o mundo.
Levantei-me.
Paguei o chá.
E eu que nem fumo, deixei-lhe um maço de cigarros.
O dono do café perguntou:
“Entrego agora?”
E eu respondi:
“Deixa-me ir embora.”
Não foi por vergonha.
Foi porque há gestos que só são verdadeiramente bonitos quando ninguém está ali para ver a reação.
E no fim do dia percebi isto:
hoje vi a vida nos seus três tons mais honestos: a despedida que dói, o reencontro que aquece e a dignidade silenciosa de um desconhecido a pedir apenas um cigarro… como quem ainda tenta manter de pé a última parede da própria casa.
Presente na despedida de alguém.
Presente no reencontro de um amigo.
E presente o suficiente para ver dignidade onde outros talvez só vissem um homem a pedir um cigarro.
Essa paz costuma aparecer quando sabemos, cá dentro, que fizemos o que era certo. Sem teatro. Só humanidade.
Dormir assim… é dormir leve.
Há dias que fazem barulho… e há dias que, depois de tudo, acabam assim, numa paz tranquila, quase como uma maré que finalmente ficou lisa. E sabemos o quanto são precisas as marés baixas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A vida


A vida acontece nesse lugar frágil entre o que sonhámos e o que nunca chegou a ser. 
Nos encontros que pareciam destino e nos desencontros que nos deixaram à deriva. Houve coisas que tomámos como certas: pessoas, promessas, futuros inteiros e um dia percebemos que eram apenas nuvens a passar, bonitas, mas sem chão.
Depois há quem fique. 
Quem aprenda o nosso silêncio, quem reconhece o peso dos dias difíceis e não foge. 
São presenças que não fazem promessas grandes, mas permanecem. 
E isso, por si só, é uma forma rara de amor.
Pelo caminho, teimamos em não perder os sorrisos. 
Mesmo gastos, mesmo tortos, mesmo usados como escudo. 
São eles que nos lembram que ainda há leveza, mesmo quando o mundo pesa. 
E aprendemos a respeitar os silêncios... esses espaços onde não é preciso explicar nada, onde o coração se recolhe para se recompor. 
Há silêncios que não afastam, simplesmente acolhem.
Todos os dias travamos batalhas que ninguém vê. 
Levantamo-nos com o coração cansado, remendamos a fé, seguimos mesmo com medo. 
A coragem nem sempre ruge. 
Às vezes apenas respira fundo e dá mais um passo.
E no meio de tudo, a esperança. 
Não como milagre, mas como semente. 
Pequena, persistente, quase invisível. 
A esperança que resiste quando tudo falha, que se transforma em resiliência, que nos ensina a continuar mesmo sem certezas.
Viver é isto: aceitar as perdas sem perder a capacidade de sorrir, aprender a ficar em silêncio sem nos perdermos de nós. 
É caminhar com as cicatrizes à mostra e, ainda assim, escolher a luz. 
Porque enquanto houver esperança,mesmo cansada, mesmo discreta, há caminho. 
E enquanto há caminho, há vida.
 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Às vezes estar sozinha não é solidão...


...é descanso. 
É escolher silêncio em vez de ruído, verdade em vez de migalhas. 
É perceber que a nossa própria companhia, quando é honesta, vale mais do que presenças pela metade. 
Estar sozinha, muitas vezes, é o sítio mais seguro quando o resto do mundo só oferece versões incompletas.
Nunca ser a primeira opção é uma ferida discreta, mas funda. 
Não faz barulho, não dá espetáculo, mas ensina. 
Ensina à força. Ensina que para muita gente somos importantes… até aparecer algo melhor. 
Somos o “logo se vê”, o “quando der”, o plano B que só entra em campo quando o plano A falha. 
E isso desgasta. 
Corrói devagar.
Nas amizades, então, a dor é diferente. 
Porque amizade devia ser abrigo, não sala de espera. 
É seres sempre a que ouve, a que apoia, a que está presente, mas raramente a escolhida. 
Boa para segurar os outros quando caem, menos lembrada quando há escolhas a fazer. 
Estás lá nos dias difíceis, mas ficas de fora nos dias leves. 
E isso deixa marcas.
Durante muito tempo, a gente aceita. 
Arranja desculpas. 
Diz que não é pessoal, que ninguém deve nada a ninguém. 
Vai-se diminuindo para caber no espaço que nos dão. 
Aprende a não pedir para não incomodar. 
A não esperar para não doer. 
A confundir maturidade com silêncio emocional.
Depois vêm os “quases”. 
Quase amor, quase amizade inteira, quase prioridade. 
Histórias que prometem presença,mas entregam ausência. 
Caminhos que parecem ir a algum lado, mas acabam sempre no mesmo ponto: tu a dar mais, tu a esperar mais, tu a entender mais. 
Quases que cansam. 
São promessas sem corpo.
Aceitar tudo isto não me tornou fria. 
Tornou-me lúcida. 
Hoje sei que não é sobre ser o centro do mundo de alguém, é sobre reciprocidade. 
Sobre não precisar de implorar por lugar. 
Se não sou escolha consciente, não fico em fila de espera. 
Prefiro estar sozinha do que mal acompanhada, prefiro a minha paz a ser plano de reserva, prefiro um vazio honesto a uma companhia conveniente.
E se às vezes a solidão pesa? Pesa. 
Mas pesa menos do que insistir onde nunca fui prioridade. 
No fim, fica uma verdade simples e tranquila: posso não ser a primeira opção de ninguém… mas sou a minha. 
E isso, sem ironias, já é amor suficiente para começar. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Recado...


 

De todas as vezes que te ocorrer dizer a uma mulher que está numa relação tóxica porque gosta, deixa-me só lembrar-te de que há inúmeros elementos sobre a sua vida que, provavelmente, desconheces. 
Nenhuma mulher gosta de viver assim. 
Nenhuma! 
Ao invés, pergunta-lhe antes porque não consegue sair. 
Já te perguntaste como estarão a sua cabeça e o seu coração?
Pergunta-lhe se precisa de alguma coisa e não julgues, porque ela não precisa disso. 
Têm-no em casa todos os dias, em todas as horas. 
Não a diminuas, porque alguém já o faz repetidamente. 
Não ponhas em causa aquilo que te disser porque não é nem um terço de tudo o que ela quer falar. 
Sabes, as pessoas aprendem a disfarçar a vergonha de viverem uma vida que não merecem. 
As pessoas aprendem a arranjar desculpas para o indesculpável.
Quando a cabeça deita na almofada, só procura soluções que, parecem sempre inalcançáveis, procura um pouco da paz que lhe tiram ao longo do dia. 
Procura uma luz que teima em não chegar.
E, tu não sabes, o que ela já fez ou deixou de fazer para se libertar, tu não sabes a que portas bateu e quantas se lhe fecharam na cara. 
Tu não lhe conheces a dor porque ela habituou-te ao seu sorriso e a dar-te o melhor que tem, mesmo que a ela lhe tirem tudo.
Não existem mulheres capazes de gostar destas vidas.
No entanto, o que existem são mulheres silenciadas, ameaçadas, demasiado humilhadas e com medo, com muito medo.
Se não tiveres nada de bom para dizer, fica calado... 
Porque ela já ouviu isso tudo, vezes sem conta. 
E, sabes que mais? 
Só depende dela. 
Da coragem que tem que nascer. 
Das circunstâncias que têm que se alinhar... 
E de fé!! 
Fé de que um dia tudo termina, seja lá da forma que for, mas termina. 


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Insónias...


 São quase três da manhã e estou na varanda fechada, mas aberta para o céu. 
Cansada, mas lúcida. 
Inquieta, mas serena (se é que isto faz sentido). 
A lua espreita serena entre os prédios, espalhando um brilho suave sobre a roupa estendida nos estendais dos vizinhos, que balança devagar, como se dançasse ao som de uma melodia que só eu consigo ouvir. 
As estrelas piscam, tímidas, cada uma como uma promessa de tudo o que ainda quero viver. 
Com tudo o que está por vir.
O silêncio domina, mas não está vazio. 
Chegam-me sons da rua: passos lentos, o farfalhar das folhas, um carro distante. 
Escuto também os murmúrios das casas: risos abafados, portas que se fecham, televisões ligadas, saltos que batem no soalho. 
Tudo se mistura numa sinfonia íntima, um murmúrio de vidas que continuam mesmo enquanto o mundo parece dormir.
E no meio deste cenário, Rui Veloso canta baixinho para mim. 
Volto sempre ao "Anel de rubi".... suave e carregada de memórias, como se a cidade inteira tivesse decidido cantar para mim esta madrugada. 
Cada acorde percorre a varanda, envolve-me, e transforma cada detalhe...a roupa a balançar, o farfalhar das folhas, os sons da rua, numa dança delicada de lembranças e desejos.
Sento-me, deixo-me perder entre o brilho da lua, um gole de vinho e o ritmo da música. Penso em tudo o que ainda quero fazer, nos lugares que quero conhecer, nas histórias que ainda vou viver. 
Cada estrela é um fio de esperança, cada som da rua um lembrete de que a vida está ali, à espera. 
E eu estou aqui, quieta na varanda, entre o céu e a rua, entre o silêncio e a melodia, sonhando acordada. 
"Está um frio de rachar", mas o coração quentinho.
Mesmo cercada pelo sono do mundo, percebo que estou viva. 
Inteira. 
Solta. 
Com o coração a bater no ritmo da madrugada e da minha própria imaginação, embalado pelo "Anel de Rubi" que toca, discreto, só para mim... 
Como se tivesse sido feita para mim.


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Um dia vou apaixonar-me por ti...


 

Mesmo que ainda não saiba quem és.
E quando isso acontecer, quero que me puxes para dançar na cozinha, entre o cheiro do alho a refogar e a água a ferver no tacho, como se a vida inteira coubesse num rodopio ao som de uma música qualquer. 
Quero que me acordes às três da manhã porque a chuva lá fora insiste em chamar-nos, ou porque a lua está tão brilhante que seria crime não a partilhar debaixo de uma manta na varanda.
Quero que me ligues radiante porque o teu clube acabou de marcar e que eu sinta na tua voz o mesmo entusiasmo com que me olhas. 
Quero que me contes os teus medos, até os mais tolos e escondidos, e que me deixes segurá-los como quem protege uma vela acesa num dia de vento.
Quero que te enrosques no meu colo nos domingos preguiçosos, trocando o travesseiro pelo meu peito e que o compasso do meu coração seja o teu embalo. 
Que rias das minhas manias, que roubes batatas fritas do meu prato como se fosse um ritual nosso, que escondas bilhetes nos bolsos do meu casaco só para me surpreender quando o mundo pesar.
Quero que me olhes nos silêncios, que me guardes nos gestos pequenos e que fiques ali, só a contemplar-me, como quem olha para um segredo demasiado bonito para ser dito em voz alta.
E Acima de tudo, quero que cada instante contigo... seja um abraço, um gole partilhado, um riso fora de hora, seja imenso o suficiente para durar para sempre


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Aprendi...


 ... a ferros e silêncios, que não se pode esperar dos outros o mesmo que se dá. 
Não é maldade, é diferença. 
As pessoas não sentem igual, não medem igual, não amam igual. 
E eu, que sempre achei que dar era uma espécie de bilhete de volta, percebi que às vezes é só um bilhete de ida.
Já me zanguei comigo por isso. 
Por dar demais, por insistir em ver bondade onde só havia distração. 
Mas depois perdoei-me. 
Porque há quem nasça com o dom de dar, e não há muito a fazer, tirando o remendo do orgulho e o jeito de quem continua mesmo depois de saber.
Continuo a dar.
Mas já não espero.
Aprendi o truque, dar por gosto, não por retorno.
E se um dia parar, não é vingança.
É pausa.
Para que aprendam, ou para que sintam, por um instante, o vazio que fica quando quem dá se cansa.