O meu avô não tinha nada daquilo que o mundo costuma usar para medir o valor de uma pessoa. Não tinha títulos, nem estudos, nem riquezas para deixar. Tinha apenas dois nomes, o próprio e o apelido, e um mundo inteiro às costas.
Trazia os dias gravados nas mãos ásperas, a camisa quase sempre desabotoada pelo calor do trabalho, o rosto cansado e suado de quem passou uma vida inteira a lutar.
Mas havia uma coisa que nunca lhe faltava: os braços abertos.
Todos os domingos, mesmo sem saber se eu iria aparecer, esperava por mim no alpendre da casa. Como quem espera pelo sol depois de muitos dias de chuva. E quando me via chegar, o seu sorriso,o mais doce que alguma vez conheci, iluminava-lhe o rosto inteiro. Naquele instante, eu tinha a certeza de que existia um lugar no mundo onde era esperada.
O colo dele era pequeno para tantas dores, mas nunca deixou nenhuma de fora.
Ainda hoje acredito que era o melhor colo do mundo. O único sítio onde tudo parecia ficar mais leve. Onde não era preciso explicar nada. Bastava estar.
Nasceu em 1920. Viu um século inteiro passar-lhe diante dos olhos. Carregou dificuldades que a minha geração dificilmente conseguirá imaginar. E, ainda assim, guardou uma ternura que muitos nunca conseguem encontrar.
Às vezes inclinava-se para mim e dizia, baixinho, com aquele brilho cúmplice no olhar:
— Não contes a ninguém, mas és a minha neta preferida.
E eu fingia acreditar que era um segredo só nosso.
Havia qualquer coisa de profundo entre nós. Uma ligação que nunca precisou de palavras bonitas para existir. Não sei explicar. Não sei medir. Só sei sentir.
Talvez tenha sido a única pessoa que me amou de forma,absolutamente,incondicional. Sem exigências. Sem reservas. Sem me pedir para ser diferente de quem era.
E é por isso que as saudades dele não cabem numa palavra tão pequena.
Tenho saudades do seu sorriso, da sua voz, das suas mãos gastas, do alpendre, dos domingos. Tenho saudades de ser recebida por alguém que me olhava como se eu fosse uma das coisas mais bonitas que a vida lhe tinha dado.
O meu avô já partiu há muitos anos. Mas há amores que não aprendem a morrer.
E o dele continua aqui.
Quieto.
Firme.
A morar em mim. Como se, algures no tempo, aquele homem cansado, de camisa aberta e coração imenso, ainda estivesse sentado no alpendre à minha espera.
À espera da sua neta preferida






