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quinta-feira, 20 de agosto de 2026


 Ela não é fria, apenas não se deixa aquecer com qualquer um. Ela não é inacessível, apenas se protege. Ela não é antipática, apenas aprendeu a resguardar-se.
Ninguém lhe disse como o mundo e as pessoas podiam ser cruéis. Ninguém a avisou que a vida lhe daria tanta chapada que ela teria de se recompor, a bem ou a mal.
Ela não é distante ou indiferente. Ela não é vazia! Ah! Se as pessoas soubessem o turbilhão de emoções que giram dentro dela. Ela só não demonstra. Demora para abrir o coração, demora para confiar. Tem uma tendência quase automática para ser rude. Para manter as pessoas no lugar delas. Para nem deixar chegar perto. Se é certo? Provavelmente, não! Se é cautela? Com toda a certeza que sim!
É-lhe difícil não criar barreiras, não erguer os mais altos muros... Mas, por mais que se proteja, a vida passa por ela. As pessoas também. Mas o medo de a deixarem para trás é tanto, que ela já antecipa o final, que só ela criou, e afasta todo o mundo.
Ficaram-lhe poucos! Ficaram os que a escolheram e os que ela escolheu também. Ficaram apenas os que a que conhecem do avesso e da frente para trás. Ficaram apenas, os que viram para além do óbvio. Ficaram os que a viram com o coração! Porque o coração dela é...como o de poucos!

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Fingir nunca...


Há uma parte de mim que nunca aprendeu a fingir que não viu.
Não é teimosia. Não é necessidade de ter razão. É um sentido de justiça que me habita de uma forma quase incómoda. Há coisas que simplesmente não consigo normalizar. O desrespeito. A indiferença. A falta de humanidade. A facilidade com que alguns passam por cima dos outros e seguem a vida como se nada fosse.
Sempre me disseram que eu sentia tudo demais. Talvez sinta. Mas prefiro isso a deixar de sentir o suficiente.
Não luto porque gosto de conflitos. Na verdade, canso-me deles. O que me custa é assistir ao silêncio quando alguém devia falar. É ver o esforço de quem dá tudo ser tratado como se valesse tão pouco. É perceber que há quem confunda bondade com fraqueza e dedicação com obrigação.
O meu lado justiceiro nunca foi sobre vencer discussões. Foi sempre sobre conseguir olhar ao espelho e saber que não me calei quando a minha consciência me pedia voz.
Às vezes, pago um preço alto por isso. Desiludo-me. Afasto-me. Recomeço. Mas aprendi que a paz comprada à custa daquilo em que acredito sai sempre demasiado cara.
Não quero um mundo perfeito. Quero apenas viver num onde a honestidade ainda tenha valor, onde o trabalho seja reconhecido, onde o respeito não seja um favor e onde cuidar dos outros nunca deixe de ser um ato de dignidade.
Se isso faz de mim uma pessoa difícil, aceito. Pior seria tornar-me alguém que vê uma injustiça, encolhe os ombros e segue caminho.
Há batalhas que não escolhi. Foram elas que me escolheram. E enquanto eu continuar a ser eu, haverá sempre uma parte de mim que se levanta quando alguma coisa dentro de mim sussurra: "Isto não está certo."
Não vou pedir desculpa por ser quem sou. Mas peço desculpa, porque nem sempre me ajusto no compasso das palavras. Nem sempre me ajusto no grave da minha voz. Mas no dia em que tiver que me desviar um milímetro de quem sou, já morri.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

No dia do meu aniversário... um pouco de mim

 


Impulsiva... Bastante!!!
Consciente que alguns actos me podem levar a erros, mas sem eles não poderia aprender e dizer "ok, já não volto a fazer isto", e claro voltar a agir (in)conscientemente em determinadas situações que me oferecem momentos de puro delírio, mas que se lixe, eu gosto de sentir a adrenalina....! 
Se me apetece...faço!
  Directa é outra faceta que jamais mudarei. Quem gosta....gosta, quem não gosta, azar. Já ganhei muito por ser assim, mas admito que também já tive o reverso da medalha.
Não tenho que mostrar o que não sou, para garantir objectivos.
Eterno coração de manteiga serei sempre, raios!!! Quem me conhece sabe que é verdade. Basta um pequeno gesto, uma palavra...e pronto, derreto-me, o que acaba por vezes por contrastar com a imagem que várias pessoas têm de mim, ou seja " a durona". Totalmente falso.
Desconfiada....hummmm.....sou. A vida ocupou-se de me ensinar a sê-lo.
Teimosa! Do pior! Mas quando me provam o contrário, sou a primeira a dar o braço a torcer.
Rancorosa, não sou, embora tenha consciência que pode por vezes parecer que sim, mas após "análise", sei que não sou.
Impaciente. Sou, por vezes pareço uma miúda a roer as unhas quando espero algo que quero muito e nunca mais acontece..., mas tenho a minha dose de paciência, confesso.
Observadora. Sou, bastante. Registo o que se passa à minha volta, quer sejam lugares, pessoas, palavras, etc etc etc.
Ponderada? Nem sempre...
Bem disposta? Ahhhhh isso sou.
Dose de loucura? Nannnnn.....e era mesmo eu que ia contar!!!!
Orgulhosa? Sou sim, por vezes, e digo várias vezes também que tenho orgulho no meu orgulho...

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Decisões


 

Podia ter ido ver o mar. Sentir o sal na pele, deixar o sol aquecer os ombros, ouvir o riso de um amigo do outro lado da linha. Podia ter escolhido o movimento, o ruído, a distração. Mas fiquei.
E há um paradoxo estranho nisto tudo: muitas vezes sabemos exatamente aquilo que nos faz bem e, ainda assim, escolhemos outra coisa. Não por preguiça. Não por falta de vontade. Mas porque, por vezes, existe um cansaço que não se resolve com paisagens bonitas nem com companhia. Um cansaço que nos chama para dentro.
Passamos a vida a tentar alinhar três coisas que raramente caminham ao mesmo ritmo: aquilo que somos, aquilo que fazemos e aquilo que sentimos.
Há dias em que somos luz, mas sentimos sombra. Há dias em que queremos o mundo, mas escolhemos o silêncio. Há dias em que sabemos o caminho, mas ficamos sentados na berma a olhar para ele.
E isso confunde-nos. Porque julgamos que a coerência é estar sempre a agir de acordo com aquilo que sabemos. Mas a verdade é que somos feitos de contradições. Somos capazes de desejar o abraço e procurar a solidão. Precisar de descanso e não conseguir repousar. Ter saudades da vida e, ao mesmo tempo, não ter força para a viver naquele dia.
Talvez a parte mais difícil de ser humano seja esta: aceitar que nem sempre fazemos o que nos faria felizes e nem sempre sentimos aquilo que faz sentido sentir.
Às vezes, ficamos em casa enquanto o mar nos espera lá fora.
E talvez, naquele momento, não seja uma derrota. Talvez seja apenas a alma a tentar dizer-nos qualquer coisa numa linguagem que ainda não aprendemos completamente a traduzir.
O silêncio nem sempre é ausência de vida. Por vezes é apenas o lugar onde a vida se senta, à nossa frente, e nos obriga a escutar o que andamos há demasiado tempo a evitar ouvir. E isso pode ser doloroso. Mas também pode ser o princípio do regresso a nós mesmos. E eu preciso de regressar a mim. Porque tenho muitas saudades minhas.
Porque há dias para correr para o mundo.
E há dias em que a maior viagem é ficar. Mesmo quando o silêncio se ouve mais alto do que as ondas do mar

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Fases...


 Há fases da vida que não chegam como tempestades. Chegam como marés.
Há algum tempo que vivo numa delas. Não uma tempestade capaz de arrancar árvores pela raiz, nem um vendaval que destrói tudo de uma só vez. Apenas uma corrente silenciosa que me vai levando, devagar, para longe dos lugares onde deixei de me reconhecer. E talvez seja isso que mais custa explicar: não estou perdida. Estou a partir.
Tenho passado os últimos tempos a despedir-me de versões minhas. Não de quem sou, mas de quem fui por necessidade, por sobrevivência, por responsabilidade ou simplesmente porque a vida assim o exigiu. Tenho arrumado gavetas invisíveis, fechado portas que ficaram demasiado tempo encostadas e aprendido que algumas despedidas não acontecem de uma vez. Acontecem aos poucos, na coragem diária de já não ficar onde o coração deixou de morar.
Sou feita de pele fina e de oceanos fundos. Sempre fui. Sinto o mundo com demasiada intensidade para os tempos em que vivemos. Escuto silêncios, percebo ausências, recolho dores que nem sempre me pertencem e guardo detalhes que a maioria das pessoas deixa escapar. Durante muito tempo achei que isso era um peso. Hoje começo a acreditar que talvez seja apenas a forma que a minha alma encontrou para existir.
Mas há um cansaço que nasce quando permanecemos demasiado tempo em lugares onde já não florescemos. E eu cansei-me de me regar em terrenos que já não me querem verde.
Há noites em que me sinto uma casa em obras, com as paredes abertas e o pó suspenso no ar. Há dias em que caminho por corredores de nevoeiro sem saber exatamente onde fica a porta de saída. E, ainda assim, continuo. Porque aprendi que ficar onde já não sou feliz também é uma forma de naufrágio.
Tenho medo, claro. Quem não tem? Mas há uma coragem silenciosa em quem se recusa a acomodar-se à infelicidade. Há uma coragem enorme em quem escolhe a incerteza do caminho em vez da tristeza da permanência.
Por isso continuo.
Continuo mesmo quando a estrada parece não acabar. Continuo mesmo quando o mundo me pede respostas que ainda não tenho. Continuo porque há uma voz dentro de mim, velha, teimosa e luminosa, que se recusa a deixar-me adormecer naquilo que me apaga.
Não estou parada. Estou em travessia.
E as travessias raramente são bonitas enquanto acontecem. São feitas de dúvidas, de cansaço, de perguntas sem resposta e de dias em que parece que nada muda. Mas, talvez, a mudança não esteja a demorar demasiado. Talvez esteja apenas a ensinar-me a caminhar devagar. A confiar no que sinto. A perceber que mudar de rumo não é falhar, que recomeçar não é perder e que deixar para trás aquilo que já não faz sentido também é uma forma de amor.
Vivo entre quem fui e quem ainda não conheço. Não pertenço totalmente ao passado, mas também ainda não cheguei ao futuro. Sou uma ponte suspensa entre duas margens. E há dias em que esse lugar intermédio dói. Porque exige paciência. Porque pede fé. Porque obriga a acreditar em algo que ainda não consigo ver.
Tenho aprendido que a esperança não é uma luz gigante ao fundo do túnel. É uma pequena brasa que transporto nas mãos, mesmo quando venta. É continuar a escolher-me quando tudo à volta me pede que me acomode. É recusar a vida morna em troca da possibilidade de uma vida inteira.
Já não quero lugares onde apenas sobrevivo. Quero lugares onde respiro.
Já não quero caber. Quero pertencer.
Já não quero ser forte o tempo todo. Quero ser inteira.
E se esta mudança insiste em não passar, talvez seja porque não veio para passar. Veio para me atravessar. Veio para partir em mim tudo aquilo que já não me serve e devolver-me, lentamente, à mulher que sempre fui.
Sou rio em movimento. Sou maré em regresso. Sou uma casa à procura das suas próprias janelas.
E talvez a esperança seja exatamente isto: não a certeza de que tudo vai correr bem, mas a decisão de continuar a andar, mesmo quando ainda não se vê o destino.
Porque, no meio desta travessia, há uma coisa que já mudou para sempre: aprendi que a minha felicidade também merece ser uma prioridade.
E depois de aprendermos isso, já não há regresso possível.
Talvez eu não esteja a perder-me.
Talvez esteja, finalmente, a chegar a casa

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Tenho muitas saudades minhas



Não da pessoa que sou hoje. Dessa, vejo-me todos os dias ao espelho, ouço-lhe os pensamentos, conheço-lhe os medos, os horários, os cansaços e as rotinas. Tenho saudades de outras versões de mim. Daquelas que ficaram pelo caminho enquanto eu aprendia a sobreviver.
Tenho saudades da mulher que ria sem fazer contas ao dia seguinte. Da que acreditava que o tempo era uma coisa infinita e que as pessoas importantes ficavam para sempre. Tenho saudades da pessoa que se sentava ao sol apenas porque o sol existia, sem sentir culpa por estar parada. Da que não carregava o peso do mundo nos ombros nem tentava salvar tudo e todos.
Tenho saudades da minha leveza.
Não porque a vida fosse mais fácil. Talvez nem fosse. Mas porque eu ainda não tinha aprendido a medir tudo pelo desgaste. Ainda não sabia que algumas despedidas acontecem sem ninguém partir. Que há sonhos que morrem devagarinho. Que há cansaços que se instalam no corpo como quem muda de casa e decide ficar.
Tenho saudades da forma como olhava para o futuro. Havia mais curiosidade do que medo. Mais expectativa do que prudência. Mais coração do que defesa.
Às vezes,penso que as pessoas imaginam que as saudades são sempre dos outros. De quem amámos, de quem perdemos, de quem partiu. Mas existem saudades mais difíceis de explicar: as saudades de nós próprios.
Saudades daquilo que éramos antes das desilusões. Antes dos lutos. Antes das responsabilidades. Antes das batalhas que ninguém viu.
Saudades da pessoa que existia antes de aprender a esconder o choro, antes de engolir palavras, antes de perceber que nem todos os esforços mudam as coisas e que nem todos os amores sabem ficar.
E, no entanto, há uma verdade estranha nisto tudo.
A pessoa de quem tenho saudades não desapareceu.
Está escondida.
Debaixo das camadas de cansaço. Debaixo das preocupações. Debaixo das feridas que a vida foi deixando.
Ainda vive em mim quando me sento ao sol e sinto paz por alguns minutos. Quando rio até me doer a barriga. Quando encontro um amigo que me faz sentir em casa. Quando o mar me devolve silêncio. Quando alguma coisa simples me emociona sem pedir licença.
Talvez as saudades que sinto não sejam de alguém que perdi.
Talvez sejam um chamamento.
Uma voz antiga dentro de mim a lembrar-me quem sou para lá das funções, dos problemas, das obrigações e dos dias difíceis. Uma voz que me sussurra que ainda estou aqui. Que não desapareci. Que apenas me afastei um pouco de mim mesma.
E talvez o trabalho mais importante da vida não seja encontrar o amor, o sucesso ou as respostas certas.
Talvez seja regressar.
Regressar a casa.
E, às vezes, a casa somos nós. Nós, antes do mundo nos endurecer. Nós, depois de aprendermos tudo o que tínhamos de aprender. Nós, inteiros outra vez.
Porque há saudades que não pedem passado.
Pedem reencontro.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Avô...


O meu avô não tinha nada daquilo que o mundo costuma usar para medir o valor de uma pessoa. Não tinha títulos, nem estudos, nem riquezas para deixar. Tinha apenas dois nomes, o próprio e o apelido, e um mundo inteiro às costas.
Trazia os dias gravados nas mãos ásperas, a camisa quase sempre desabotoada pelo calor do trabalho, o rosto cansado e suado de quem passou uma vida inteira a lutar. 
Mas havia uma coisa que nunca lhe faltava: os braços abertos.
Todos os domingos, mesmo sem saber se eu iria aparecer, esperava por mim no alpendre da casa. Como quem espera pelo sol depois de muitos dias de chuva. E quando me via chegar, o seu sorriso,o mais doce que alguma vez conheci, iluminava-lhe o rosto inteiro. Naquele instante, eu tinha a certeza de que existia um lugar no mundo onde era esperada.
O colo dele era pequeno para tantas dores, mas nunca deixou nenhuma de fora. 
Ainda hoje acredito que era o melhor colo do mundo. O único sítio onde tudo parecia ficar mais leve. Onde não era preciso explicar nada. Bastava estar.
Nasceu em 1920. Viu um século inteiro passar-lhe diante dos olhos. Carregou dificuldades que a minha geração dificilmente conseguirá imaginar. E, ainda assim, guardou uma ternura que muitos nunca conseguem encontrar.
Às vezes inclinava-se para mim e dizia, baixinho, com aquele brilho cúmplice no olhar:
— Não contes a ninguém, mas és a minha neta preferida.
E eu fingia acreditar que era um segredo só nosso.
Havia qualquer coisa de profundo entre nós. Uma ligação que nunca precisou de palavras bonitas para existir. Não sei explicar. Não sei medir. Só sei sentir.
Talvez tenha sido a única pessoa que me amou de forma,absolutamente,incondicional. Sem exigências. Sem reservas. Sem me pedir para ser diferente de quem era.
E é por isso que as saudades dele não cabem numa palavra tão pequena.
Tenho saudades do seu sorriso, da sua voz, das suas mãos gastas, do alpendre, dos domingos. Tenho saudades de ser recebida por alguém que me olhava como se eu fosse uma das coisas mais bonitas que a vida lhe tinha dado.
O meu avô já partiu há muitos anos. Mas há amores que não aprendem a morrer.
E o dele continua aqui.
Quieto.
Firme.
A morar em mim. Como se, algures no tempo, aquele homem cansado, de camisa aberta e coração imenso, ainda estivesse sentado no alpendre à minha espera. 
À espera da sua neta preferida

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Cansada...


 

Há um cansaço que dormir não resolve. Não vem de uma noite mal dormida nem de um dia difícil. Vem de uma vida inteira a apertar sem nunca largar o pescoço. E o pior é que, por fora, continuamos a funcionar. Trabalhamos. Respondemos. Sorrimos quando é preciso. Fazemos compras, tratamos dos outros, resolvemos problemas. Como se não estivéssemos a perder forças em silêncio.
Mas estamos.
E chega uma altura em que a tristeza já nem parece tristeza. Parece desgaste. Parece sobreviver em piloto automático. Parece acordar já cansada daquilo que ainda nem aconteceu. Porque há vidas que não dão tréguas. Mal acabamos de respirar de uma coisa, já outra vem a correr na nossa direção. Como se o universo tivesse decidido testar até onde vai a resistência humana. E vai-se aguentando. Porque tem de ser. Porque há contas, responsabilidades, pessoas, horários, dores antigas e batalhas novas à espera todos os dias.
O problema é que ninguém ensina o que fazer quando a cabeça percebe que é preciso continuar, mas o corpo e a alma já estão sentados no chão há meses.
Então vivemos nesta divisão estranha entre o que sabemos e o que sentimos. Sabemos que desistir não é opção. Sabemos que já ultrapassámos coisas piores. Sabemos que somos fortes. Mas sentir isso? Isso já é outra conversa. Há dias em que a força parece só um boato espalhado por pessoas que não nos viram a chorar na casa de banho para ninguém perceber.
E mesmo assim… continuamos.
Às vezes, sem esperança bonita. Sem frases inspiradoras. Sem grandes epifanias. Só continuamos porque parar também não apaga nada. E talvez seja isso que custa mais: perceber que a vida não faz pausa quando nós precisamos desesperadamente de uma.
Ela continua. Crua. Indiferente. A pedir-nos mais um dia quando já demos tudo o que tínhamos ontem.
E, no meio disto tudo, há uma solidão difícil de explicar. Porque há pessoas à nossa volta, há barulho, há mensagens, há rotinas… mas poucas coisas são mais solitárias do que sentir que andamos há demasiado tempo a sobreviver enquanto toda a gente acha que estamos apenas “mais cansadas”. Ninguém vê o peso invisível das coisas que carregamos caladas. Ninguém imagina o esforço absurdo que é parecer normal quando, por dentro, há dias em que tudo em nós está a pedir descanso.
Mas depois há pequenos momentos. Pequeninos. Ridículos, quase. Um chá quente sem pressa. Um abraço inesperado. Um silêncio bom. Um dia em que a dor pesa só menos meio quilo. E é aí que percebemos que talvez a vida não dê tréguas… mas nós também ainda não desistimos dela. 
Ainda...

terça-feira, 5 de maio de 2026

Há amores que não acabam...


 ... apenas mudam de lugar dentro de nós. 
Deixam de viver nos risos, nas partilhas, nos planos ditos em voz baixa para que ninguém o pudesse apagar... e passam a viver naquele canto silencioso onde guardamos o que foi verdadeiro.
Soltar alguém que gostamos não é falta de amor. 
É, muitas vezes, a forma mais dura de o honrar. 
É perceber que o tempo não espera por indecisões, que a vida não se compadece com “talvez um dia”, e que há momentos em que continuar a segurar é, afinal, impedir ambos de respirar. 
E falta o ar. 
Demasiadas vezes.
Ficam sempre coisas por fazer. 
Conversas que nunca chegaram a acontecer. 
Abraços adiados que agora já não encontram lugar. 
Ficam frases meio ditas, promessas suspensas no ar, e aquele peso estranho de sabermos que houve sentimentos grandes demais para caber no tempo que tiveram.
Mas é curioso: aquilo que chamávamos de carência, quando visto à distância, revela-se espaço. 
Espaço para crescer, para voltar a nós próprios, para transformar ausência em possibilidade. 
Porque há vazios que não vêm para nos destruir, vêm para nos ensinar a reconstruir.
E depois há os silêncios. 
Esses que dizem mais do que qualquer discussão. 
Silêncios carregados de tudo o que não soubemos explicar, de tudo o que preferimos engolir, de tudo o que doeu admitir. 
Silêncios que, no fundo, são despedidas vestidas de calma.
Soltar alguém que se ama é aceitar que nem todas as histórias foram feitas para durar, algumas foram feitas apenas para nos transformar.
E, no fim, quando a saudade já não arde, mas apenas aquece, percebemos uma coisa simples e bonita:
há pessoas que não ficam na nossa vida… 
mas ficam para sempre na nossa essência.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

A finitude não é um fim,é um contorno


 

Dá forma a tudo o que vivemos, como a moldura de um quadro que, sem ela, se perderia no vazio. É por sabermos, lá no fundo, que o tempo não é infinito, que cada gesto ganha peso, que cada silêncio diz mais do que parece.
Há uma espécie de urgência bonita em existir. Não aquela pressa ansiosa de correr contra o relógio, mas a consciência tranquila de que cada instante é único,irrepetível. O café que arrefece enquanto conversamos, o toque breve de uma mão, o olhar que fica um segundo a mais. Pequenos nadas que, quando vistos de perto, são tudo.
E no meio disto, há uma verdade simples e crua:
ninguém foi feito para atravessar isto sozinho.
Podemos até convencer-nos do contrário, vestir a capa da independência, dizer que damos conta de tudo. Mas a vida, quando aperta,e ela aperta, se aperta, revela o que realmente importa. É no ombro onde pousamos a cabeça, na voz que nos chama pelo nome com cuidado, na presença silenciosa que não foge quando tudo em nós treme.
Não é sobre grandes gestos. Nunca foi.
É sobre o “estou aqui” dito sem palavras.
Sobre o ficar, quando seria mais fácil ir.
Sobre dividir o peso, mesmo quando não há solução.
Porque no fim, e é estranho como isto se torna claro, não levamos connosco conquistas, nem listas completas, nem dias produtivos. Levamos memórias. Rostos. Momentos em que fomos vistos, verdadeiramente vistos, e em que também soubemos ver o outro.
Cada bocadinho conta.
Mesmo aquele que achámos pequeno demais para importar.
Conta o riso fora de tempo.
Conta a mensagem que enviámos sem saber bem porquê.
Conta o abraço que demorou mais uns segundos.
Conta o “fica mais um pouco”.
A finitude não vem para nos assustar. Vem para nos lembrar:
não adiar o essencial.
não economizar na presença.
não deixar por dizer o que pode aquecer alguém.
Porque no fim de tudo, no verdadeiro fim, o que pesa não é o que faltou fazer.
É o que faltou viver… com alguém.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Há dias que parecem escritos por uma mão estranha: metade luz, metade peso.


 

Hoje começou com uma despedida.
Uma colega que se foi, levando consigo aquela presença discreta que já fazia parte do cenário dos dias. Quando alguém parte, não é só a pessoa que desaparece. Ficam as rotinas quebradas, os pequenos gestos que já não vão acontecer. A vida, ali, mostra o lado cru: o de lembrar que tudo é passagem. A cadeira vazia que não mais será ocupada por ela. Os abraços da família que, fazem dela eterna.
Mais tarde, como quem equilibra a balança, trouxe-me um reencontro.
Um amigo que não via há algum tempo. Conversa solta, riso fácil, a sensação rara de voltar a um lugar onde já fomos felizes. Há pessoas que, mesmo depois de uma ausência, continuam a caber no mesmo lugar dentro de nós.
E depois houve a esplanada.
Um homem aproximou-se e perguntou se podia comprar um cigarro.
Não pediu. Perguntou se podia comprar. Aquilo ficou-me atravessado no pensamento. Que vida é esta em que alguém tem de ganhar coragem para abordar um estranho por causa de um cigarro?
Sentou-se. Pediu um chá de camomila.
E eu fiquei ali, a pensar nas voltas silenciosas que a vida dá às pessoas. Na dificuldade que,às vezes,mora dentro da dignidade. Porque naquele gesto não havia miséria,havia educação. Havia humildade. Havia um cuidado quase antigo em não incomodar demasiado o mundo.
Levantei-me.
Paguei o chá.
E eu que nem fumo, deixei-lhe um maço de cigarros.
O dono do café perguntou:
“Entrego agora?”
E eu respondi:
“Deixa-me ir embora.”
Não foi por vergonha.
Foi porque há gestos que só são verdadeiramente bonitos quando ninguém está ali para ver a reação.
E no fim do dia percebi isto:
hoje vi a vida nos seus três tons mais honestos: a despedida que dói, o reencontro que aquece e a dignidade silenciosa de um desconhecido a pedir apenas um cigarro… como quem ainda tenta manter de pé a última parede da própria casa.
Presente na despedida de alguém.
Presente no reencontro de um amigo.
E presente o suficiente para ver dignidade onde outros talvez só vissem um homem a pedir um cigarro.
Essa paz costuma aparecer quando sabemos, cá dentro, que fizemos o que era certo. Sem teatro. Só humanidade.
Dormir assim… é dormir leve.
Há dias que fazem barulho… e há dias que, depois de tudo, acabam assim, numa paz tranquila, quase como uma maré que finalmente ficou lisa. E sabemos o quanto são precisas as marés baixas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A vida


A vida acontece nesse lugar frágil entre o que sonhámos e o que nunca chegou a ser. 
Nos encontros que pareciam destino e nos desencontros que nos deixaram à deriva. Houve coisas que tomámos como certas: pessoas, promessas, futuros inteiros e um dia percebemos que eram apenas nuvens a passar, bonitas, mas sem chão.
Depois há quem fique. 
Quem aprenda o nosso silêncio, quem reconhece o peso dos dias difíceis e não foge. 
São presenças que não fazem promessas grandes, mas permanecem. 
E isso, por si só, é uma forma rara de amor.
Pelo caminho, teimamos em não perder os sorrisos. 
Mesmo gastos, mesmo tortos, mesmo usados como escudo. 
São eles que nos lembram que ainda há leveza, mesmo quando o mundo pesa. 
E aprendemos a respeitar os silêncios... esses espaços onde não é preciso explicar nada, onde o coração se recolhe para se recompor. 
Há silêncios que não afastam, simplesmente acolhem.
Todos os dias travamos batalhas que ninguém vê. 
Levantamo-nos com o coração cansado, remendamos a fé, seguimos mesmo com medo. 
A coragem nem sempre ruge. 
Às vezes apenas respira fundo e dá mais um passo.
E no meio de tudo, a esperança. 
Não como milagre, mas como semente. 
Pequena, persistente, quase invisível. 
A esperança que resiste quando tudo falha, que se transforma em resiliência, que nos ensina a continuar mesmo sem certezas.
Viver é isto: aceitar as perdas sem perder a capacidade de sorrir, aprender a ficar em silêncio sem nos perdermos de nós. 
É caminhar com as cicatrizes à mostra e, ainda assim, escolher a luz. 
Porque enquanto houver esperança,mesmo cansada, mesmo discreta, há caminho. 
E enquanto há caminho, há vida.
 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Às vezes estar sozinha não é solidão...


...é descanso. 
É escolher silêncio em vez de ruído, verdade em vez de migalhas. 
É perceber que a nossa própria companhia, quando é honesta, vale mais do que presenças pela metade. 
Estar sozinha, muitas vezes, é o sítio mais seguro quando o resto do mundo só oferece versões incompletas.
Nunca ser a primeira opção é uma ferida discreta, mas funda. 
Não faz barulho, não dá espetáculo, mas ensina. 
Ensina à força. Ensina que para muita gente somos importantes… até aparecer algo melhor. 
Somos o “logo se vê”, o “quando der”, o plano B que só entra em campo quando o plano A falha. 
E isso desgasta. 
Corrói devagar.
Nas amizades, então, a dor é diferente. 
Porque amizade devia ser abrigo, não sala de espera. 
É seres sempre a que ouve, a que apoia, a que está presente, mas raramente a escolhida. 
Boa para segurar os outros quando caem, menos lembrada quando há escolhas a fazer. 
Estás lá nos dias difíceis, mas ficas de fora nos dias leves. 
E isso deixa marcas.
Durante muito tempo, a gente aceita. 
Arranja desculpas. 
Diz que não é pessoal, que ninguém deve nada a ninguém. 
Vai-se diminuindo para caber no espaço que nos dão. 
Aprende a não pedir para não incomodar. 
A não esperar para não doer. 
A confundir maturidade com silêncio emocional.
Depois vêm os “quases”. 
Quase amor, quase amizade inteira, quase prioridade. 
Histórias que prometem presença,mas entregam ausência. 
Caminhos que parecem ir a algum lado, mas acabam sempre no mesmo ponto: tu a dar mais, tu a esperar mais, tu a entender mais. 
Quases que cansam. 
São promessas sem corpo.
Aceitar tudo isto não me tornou fria. 
Tornou-me lúcida. 
Hoje sei que não é sobre ser o centro do mundo de alguém, é sobre reciprocidade. 
Sobre não precisar de implorar por lugar. 
Se não sou escolha consciente, não fico em fila de espera. 
Prefiro estar sozinha do que mal acompanhada, prefiro a minha paz a ser plano de reserva, prefiro um vazio honesto a uma companhia conveniente.
E se às vezes a solidão pesa? Pesa. 
Mas pesa menos do que insistir onde nunca fui prioridade. 
No fim, fica uma verdade simples e tranquila: posso não ser a primeira opção de ninguém… mas sou a minha. 
E isso, sem ironias, já é amor suficiente para começar.