quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"Estórias na 3ª pessoa"


Levantou-se da mesa quase involuntariamente, retirou o copo e o prato e coloco-os no lava-loiça. Não lhe apetecia lavá-los, quis deixá-los ali para dar a impressão que ainda havia vida naquela casa.
Sentou-se no sofá e olhou para o retrato na parede, nele ainda restavam seus pais e seus avós.
Aconteceu tudo tão rápido que ela ainda não aprendeu a lidar com a situação.
Num dia estavam todos juntos a almoçar, conversando sobre banalidades, rindo…
Num outro dia só sobrava ela, e como se culpava por não estar naquele carro naquela factídica hora, até hoje lamentava o facto de não ter morrido com eles.
Agarrou no casaco e saiu. O dia estava escuro, o nevoeiro cobria o horizonte de tal maneira que nem se conseguia ver o fundo da rua. Sentia o frio entranhar-se na pele outrora rosada e hoje tão pálida. Não conseguia ver o caminho, mas ela conhecia-o bem demais para se permitir errá-lo.
Dobrou a esquina e parou em frente a uma casa antiga pintada de azul-bebé. Era ali que passava as tardes depois da escola, entregue aos mimos dos avós. Sorriu melancolicamente, só hoje se apercebeu de como era feliz nessa época.
Mas tudo isso fazia parte de um passado que ela teimava em não deixar esquecer.
Já tinham passado mais de dez anos,mas ainda se lembrava de cada detalhe como se fosse hoje.
O acidente, os jornalistas, o funeral, naquela época tudo lhe parecia tão confuso, afinal era só uma menina.
Só se apercebeu bem do estado que estava a sua vida, quando um dia foi jantar e olhou para a extensão da mesa e sentiu uma enorme solidão.
Estava irremediavelmente só! Mesmo rodeada de pessoas ela sentia o peso da solidão todos os dias.
Passados todos estes anos, a velha frase “A vida continua” ainda não faz o menor sentido.
Porque para ela aquilo não é vida. Considera-se apenas uma presença entristecida, moribunda que não consegue fazer a vida seguir.
Sentiu o aconchego das lágrimas mornas a escorrerem pela face, e pela primeira vez depois de tantos anos permitiu-se chorar. 

2 comentários:

  1. As lágrimas servem para lavar a tristeza ... e se chorou, significa que melhores dias virão ...

    Beijinhos

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    1. Concerteza que sim, as lágrimas aliviam o sofrimento.
      Beijos

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