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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A vida


A vida acontece nesse lugar frágil entre o que sonhámos e o que nunca chegou a ser. 
Nos encontros que pareciam destino e nos desencontros que nos deixaram à deriva. Houve coisas que tomámos como certas: pessoas, promessas, futuros inteiros e um dia percebemos que eram apenas nuvens a passar, bonitas, mas sem chão.
Depois há quem fique. 
Quem aprenda o nosso silêncio, quem reconhece o peso dos dias difíceis e não foge. 
São presenças que não fazem promessas grandes, mas permanecem. 
E isso, por si só, é uma forma rara de amor.
Pelo caminho, teimamos em não perder os sorrisos. 
Mesmo gastos, mesmo tortos, mesmo usados como escudo. 
São eles que nos lembram que ainda há leveza, mesmo quando o mundo pesa. 
E aprendemos a respeitar os silêncios... esses espaços onde não é preciso explicar nada, onde o coração se recolhe para se recompor. 
Há silêncios que não afastam, simplesmente acolhem.
Todos os dias travamos batalhas que ninguém vê. 
Levantamo-nos com o coração cansado, remendamos a fé, seguimos mesmo com medo. 
A coragem nem sempre ruge. 
Às vezes apenas respira fundo e dá mais um passo.
E no meio de tudo, a esperança. 
Não como milagre, mas como semente. 
Pequena, persistente, quase invisível. 
A esperança que resiste quando tudo falha, que se transforma em resiliência, que nos ensina a continuar mesmo sem certezas.
Viver é isto: aceitar as perdas sem perder a capacidade de sorrir, aprender a ficar em silêncio sem nos perdermos de nós. 
É caminhar com as cicatrizes à mostra e, ainda assim, escolher a luz. 
Porque enquanto houver esperança,mesmo cansada, mesmo discreta, há caminho. 
E enquanto há caminho, há vida.
 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Às vezes estar sozinha não é solidão...


...é descanso. 
É escolher silêncio em vez de ruído, verdade em vez de migalhas. 
É perceber que a nossa própria companhia, quando é honesta, vale mais do que presenças pela metade. 
Estar sozinha, muitas vezes, é o sítio mais seguro quando o resto do mundo só oferece versões incompletas.
Nunca ser a primeira opção é uma ferida discreta, mas funda. 
Não faz barulho, não dá espetáculo, mas ensina. 
Ensina à força. Ensina que para muita gente somos importantes… até aparecer algo melhor. 
Somos o “logo se vê”, o “quando der”, o plano B que só entra em campo quando o plano A falha. 
E isso desgasta. 
Corrói devagar.
Nas amizades, então, a dor é diferente. 
Porque amizade devia ser abrigo, não sala de espera. 
É seres sempre a que ouve, a que apoia, a que está presente, mas raramente a escolhida. 
Boa para segurar os outros quando caem, menos lembrada quando há escolhas a fazer. 
Estás lá nos dias difíceis, mas ficas de fora nos dias leves. 
E isso deixa marcas.
Durante muito tempo, a gente aceita. 
Arranja desculpas. 
Diz que não é pessoal, que ninguém deve nada a ninguém. 
Vai-se diminuindo para caber no espaço que nos dão. 
Aprende a não pedir para não incomodar. 
A não esperar para não doer. 
A confundir maturidade com silêncio emocional.
Depois vêm os “quases”. 
Quase amor, quase amizade inteira, quase prioridade. 
Histórias que prometem presença,mas entregam ausência. 
Caminhos que parecem ir a algum lado, mas acabam sempre no mesmo ponto: tu a dar mais, tu a esperar mais, tu a entender mais. 
Quases que cansam. 
São promessas sem corpo.
Aceitar tudo isto não me tornou fria. 
Tornou-me lúcida. 
Hoje sei que não é sobre ser o centro do mundo de alguém, é sobre reciprocidade. 
Sobre não precisar de implorar por lugar. 
Se não sou escolha consciente, não fico em fila de espera. 
Prefiro estar sozinha do que mal acompanhada, prefiro a minha paz a ser plano de reserva, prefiro um vazio honesto a uma companhia conveniente.
E se às vezes a solidão pesa? Pesa. 
Mas pesa menos do que insistir onde nunca fui prioridade. 
No fim, fica uma verdade simples e tranquila: posso não ser a primeira opção de ninguém… mas sou a minha. 
E isso, sem ironias, já é amor suficiente para começar.