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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Cansada...


 

Há um cansaço que dormir não resolve. Não vem de uma noite mal dormida nem de um dia difícil. Vem de uma vida inteira a apertar sem nunca largar o pescoço. E o pior é que, por fora, continuamos a funcionar. Trabalhamos. Respondemos. Sorrimos quando é preciso. Fazemos compras, tratamos dos outros, resolvemos problemas. Como se não estivéssemos a perder forças em silêncio.
Mas estamos.
E chega uma altura em que a tristeza já nem parece tristeza. Parece desgaste. Parece sobreviver em piloto automático. Parece acordar já cansada daquilo que ainda nem aconteceu. Porque há vidas que não dão tréguas. Mal acabamos de respirar de uma coisa, já outra vem a correr na nossa direção. Como se o universo tivesse decidido testar até onde vai a resistência humana. E vai-se aguentando. Porque tem de ser. Porque há contas, responsabilidades, pessoas, horários, dores antigas e batalhas novas à espera todos os dias.
O problema é que ninguém ensina o que fazer quando a cabeça percebe que é preciso continuar, mas o corpo e a alma já estão sentados no chão há meses.
Então vivemos nesta divisão estranha entre o que sabemos e o que sentimos. Sabemos que desistir não é opção. Sabemos que já ultrapassámos coisas piores. Sabemos que somos fortes. Mas sentir isso? Isso já é outra conversa. Há dias em que a força parece só um boato espalhado por pessoas que não nos viram a chorar na casa de banho para ninguém perceber.
E mesmo assim… continuamos.
Às vezes, sem esperança bonita. Sem frases inspiradoras. Sem grandes epifanias. Só continuamos porque parar também não apaga nada. E talvez seja isso que custa mais: perceber que a vida não faz pausa quando nós precisamos desesperadamente de uma.
Ela continua. Crua. Indiferente. A pedir-nos mais um dia quando já demos tudo o que tínhamos ontem.
E, no meio disto tudo, há uma solidão difícil de explicar. Porque há pessoas à nossa volta, há barulho, há mensagens, há rotinas… mas poucas coisas são mais solitárias do que sentir que andamos há demasiado tempo a sobreviver enquanto toda a gente acha que estamos apenas “mais cansadas”. Ninguém vê o peso invisível das coisas que carregamos caladas. Ninguém imagina o esforço absurdo que é parecer normal quando, por dentro, há dias em que tudo em nós está a pedir descanso.
Mas depois há pequenos momentos. Pequeninos. Ridículos, quase. Um chá quente sem pressa. Um abraço inesperado. Um silêncio bom. Um dia em que a dor pesa só menos meio quilo. E é aí que percebemos que talvez a vida não dê tréguas… mas nós também ainda não desistimos dela. 
Ainda...

terça-feira, 5 de maio de 2026

Há amores que não acabam...


 ... apenas mudam de lugar dentro de nós. 
Deixam de viver nos risos, nas partilhas, nos planos ditos em voz baixa para que ninguém o pudesse apagar... e passam a viver naquele canto silencioso onde guardamos o que foi verdadeiro.
Soltar alguém que gostamos não é falta de amor. 
É, muitas vezes, a forma mais dura de o honrar. 
É perceber que o tempo não espera por indecisões, que a vida não se compadece com “talvez um dia”, e que há momentos em que continuar a segurar é, afinal, impedir ambos de respirar. 
E falta o ar. 
Demasiadas vezes.
Ficam sempre coisas por fazer. 
Conversas que nunca chegaram a acontecer. 
Abraços adiados que agora já não encontram lugar. 
Ficam frases meio ditas, promessas suspensas no ar, e aquele peso estranho de sabermos que houve sentimentos grandes demais para caber no tempo que tiveram.
Mas é curioso: aquilo que chamávamos de carência, quando visto à distância, revela-se espaço. 
Espaço para crescer, para voltar a nós próprios, para transformar ausência em possibilidade. 
Porque há vazios que não vêm para nos destruir, vêm para nos ensinar a reconstruir.
E depois há os silêncios. 
Esses que dizem mais do que qualquer discussão. 
Silêncios carregados de tudo o que não soubemos explicar, de tudo o que preferimos engolir, de tudo o que doeu admitir. 
Silêncios que, no fundo, são despedidas vestidas de calma.
Soltar alguém que se ama é aceitar que nem todas as histórias foram feitas para durar, algumas foram feitas apenas para nos transformar.
E, no fim, quando a saudade já não arde, mas apenas aquece, percebemos uma coisa simples e bonita:
há pessoas que não ficam na nossa vida… 
mas ficam para sempre na nossa essência.