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quinta-feira, 30 de abril de 2026

A finitude não é um fim,é um contorno


 

Dá forma a tudo o que vivemos, como a moldura de um quadro que, sem ela, se perderia no vazio. É por sabermos, lá no fundo, que o tempo não é infinito, que cada gesto ganha peso, que cada silêncio diz mais do que parece.
Há uma espécie de urgência bonita em existir. Não aquela pressa ansiosa de correr contra o relógio, mas a consciência tranquila de que cada instante é único,irrepetível. O café que arrefece enquanto conversamos, o toque breve de uma mão, o olhar que fica um segundo a mais. Pequenos nadas que, quando vistos de perto, são tudo.
E no meio disto, há uma verdade simples e crua:
ninguém foi feito para atravessar isto sozinho.
Podemos até convencer-nos do contrário, vestir a capa da independência, dizer que damos conta de tudo. Mas a vida, quando aperta,e ela aperta, se aperta, revela o que realmente importa. É no ombro onde pousamos a cabeça, na voz que nos chama pelo nome com cuidado, na presença silenciosa que não foge quando tudo em nós treme.
Não é sobre grandes gestos. Nunca foi.
É sobre o “estou aqui” dito sem palavras.
Sobre o ficar, quando seria mais fácil ir.
Sobre dividir o peso, mesmo quando não há solução.
Porque no fim, e é estranho como isto se torna claro, não levamos connosco conquistas, nem listas completas, nem dias produtivos. Levamos memórias. Rostos. Momentos em que fomos vistos, verdadeiramente vistos, e em que também soubemos ver o outro.
Cada bocadinho conta.
Mesmo aquele que achámos pequeno demais para importar.
Conta o riso fora de tempo.
Conta a mensagem que enviámos sem saber bem porquê.
Conta o abraço que demorou mais uns segundos.
Conta o “fica mais um pouco”.
A finitude não vem para nos assustar. Vem para nos lembrar:
não adiar o essencial.
não economizar na presença.
não deixar por dizer o que pode aquecer alguém.
Porque no fim de tudo, no verdadeiro fim, o que pesa não é o que faltou fazer.
É o que faltou viver… com alguém.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Há dias que parecem escritos por uma mão estranha: metade luz, metade peso.


 

Hoje começou com uma despedida.
Uma colega que se foi, levando consigo aquela presença discreta que já fazia parte do cenário dos dias. Quando alguém parte, não é só a pessoa que desaparece. Ficam as rotinas quebradas, os pequenos gestos que já não vão acontecer. A vida, ali, mostra o lado cru: o de lembrar que tudo é passagem. A cadeira vazia que não mais será ocupada por ela. Os abraços da família que, fazem dela eterna.
Mais tarde, como quem equilibra a balança, trouxe-me um reencontro.
Um amigo que não via há algum tempo. Conversa solta, riso fácil, a sensação rara de voltar a um lugar onde já fomos felizes. Há pessoas que, mesmo depois de uma ausência, continuam a caber no mesmo lugar dentro de nós.
E depois houve a esplanada.
Um homem aproximou-se e perguntou se podia comprar um cigarro.
Não pediu. Perguntou se podia comprar. Aquilo ficou-me atravessado no pensamento. Que vida é esta em que alguém tem de ganhar coragem para abordar um estranho por causa de um cigarro?
Sentou-se. Pediu um chá de camomila.
E eu fiquei ali, a pensar nas voltas silenciosas que a vida dá às pessoas. Na dificuldade que,às vezes,mora dentro da dignidade. Porque naquele gesto não havia miséria,havia educação. Havia humildade. Havia um cuidado quase antigo em não incomodar demasiado o mundo.
Levantei-me.
Paguei o chá.
E eu que nem fumo, deixei-lhe um maço de cigarros.
O dono do café perguntou:
“Entrego agora?”
E eu respondi:
“Deixa-me ir embora.”
Não foi por vergonha.
Foi porque há gestos que só são verdadeiramente bonitos quando ninguém está ali para ver a reação.
E no fim do dia percebi isto:
hoje vi a vida nos seus três tons mais honestos: a despedida que dói, o reencontro que aquece e a dignidade silenciosa de um desconhecido a pedir apenas um cigarro… como quem ainda tenta manter de pé a última parede da própria casa.
Presente na despedida de alguém.
Presente no reencontro de um amigo.
E presente o suficiente para ver dignidade onde outros talvez só vissem um homem a pedir um cigarro.
Essa paz costuma aparecer quando sabemos, cá dentro, que fizemos o que era certo. Sem teatro. Só humanidade.
Dormir assim… é dormir leve.
Há dias que fazem barulho… e há dias que, depois de tudo, acabam assim, numa paz tranquila, quase como uma maré que finalmente ficou lisa. E sabemos o quanto são precisas as marés baixas.