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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Tenho muitas saudades minhas



Não da pessoa que sou hoje. Dessa, vejo-me todos os dias ao espelho, ouço-lhe os pensamentos, conheço-lhe os medos, os horários, os cansaços e as rotinas. Tenho saudades de outras versões de mim. Daquelas que ficaram pelo caminho enquanto eu aprendia a sobreviver.
Tenho saudades da mulher que ria sem fazer contas ao dia seguinte. Da que acreditava que o tempo era uma coisa infinita e que as pessoas importantes ficavam para sempre. Tenho saudades da pessoa que se sentava ao sol apenas porque o sol existia, sem sentir culpa por estar parada. Da que não carregava o peso do mundo nos ombros nem tentava salvar tudo e todos.
Tenho saudades da minha leveza.
Não porque a vida fosse mais fácil. Talvez nem fosse. Mas porque eu ainda não tinha aprendido a medir tudo pelo desgaste. Ainda não sabia que algumas despedidas acontecem sem ninguém partir. Que há sonhos que morrem devagarinho. Que há cansaços que se instalam no corpo como quem muda de casa e decide ficar.
Tenho saudades da forma como olhava para o futuro. Havia mais curiosidade do que medo. Mais expectativa do que prudência. Mais coração do que defesa.
Às vezes,penso que as pessoas imaginam que as saudades são sempre dos outros. De quem amámos, de quem perdemos, de quem partiu. Mas existem saudades mais difíceis de explicar: as saudades de nós próprios.
Saudades daquilo que éramos antes das desilusões. Antes dos lutos. Antes das responsabilidades. Antes das batalhas que ninguém viu.
Saudades da pessoa que existia antes de aprender a esconder o choro, antes de engolir palavras, antes de perceber que nem todos os esforços mudam as coisas e que nem todos os amores sabem ficar.
E, no entanto, há uma verdade estranha nisto tudo.
A pessoa de quem tenho saudades não desapareceu.
Está escondida.
Debaixo das camadas de cansaço. Debaixo das preocupações. Debaixo das feridas que a vida foi deixando.
Ainda vive em mim quando me sento ao sol e sinto paz por alguns minutos. Quando rio até me doer a barriga. Quando encontro um amigo que me faz sentir em casa. Quando o mar me devolve silêncio. Quando alguma coisa simples me emociona sem pedir licença.
Talvez as saudades que sinto não sejam de alguém que perdi.
Talvez sejam um chamamento.
Uma voz antiga dentro de mim a lembrar-me quem sou para lá das funções, dos problemas, das obrigações e dos dias difíceis. Uma voz que me sussurra que ainda estou aqui. Que não desapareci. Que apenas me afastei um pouco de mim mesma.
E talvez o trabalho mais importante da vida não seja encontrar o amor, o sucesso ou as respostas certas.
Talvez seja regressar.
Regressar a casa.
E, às vezes, a casa somos nós. Nós, antes do mundo nos endurecer. Nós, depois de aprendermos tudo o que tínhamos de aprender. Nós, inteiros outra vez.
Porque há saudades que não pedem passado.
Pedem reencontro.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Avô...


O meu avô não tinha nada daquilo que o mundo costuma usar para medir o valor de uma pessoa. Não tinha títulos, nem estudos, nem riquezas para deixar. Tinha apenas dois nomes, o próprio e o apelido, e um mundo inteiro às costas.
Trazia os dias gravados nas mãos ásperas, a camisa quase sempre desabotoada pelo calor do trabalho, o rosto cansado e suado de quem passou uma vida inteira a lutar. 
Mas havia uma coisa que nunca lhe faltava: os braços abertos.
Todos os domingos, mesmo sem saber se eu iria aparecer, esperava por mim no alpendre da casa. Como quem espera pelo sol depois de muitos dias de chuva. E quando me via chegar, o seu sorriso,o mais doce que alguma vez conheci, iluminava-lhe o rosto inteiro. Naquele instante, eu tinha a certeza de que existia um lugar no mundo onde era esperada.
O colo dele era pequeno para tantas dores, mas nunca deixou nenhuma de fora. 
Ainda hoje acredito que era o melhor colo do mundo. O único sítio onde tudo parecia ficar mais leve. Onde não era preciso explicar nada. Bastava estar.
Nasceu em 1920. Viu um século inteiro passar-lhe diante dos olhos. Carregou dificuldades que a minha geração dificilmente conseguirá imaginar. E, ainda assim, guardou uma ternura que muitos nunca conseguem encontrar.
Às vezes inclinava-se para mim e dizia, baixinho, com aquele brilho cúmplice no olhar:
— Não contes a ninguém, mas és a minha neta preferida.
E eu fingia acreditar que era um segredo só nosso.
Havia qualquer coisa de profundo entre nós. Uma ligação que nunca precisou de palavras bonitas para existir. Não sei explicar. Não sei medir. Só sei sentir.
Talvez tenha sido a única pessoa que me amou de forma,absolutamente,incondicional. Sem exigências. Sem reservas. Sem me pedir para ser diferente de quem era.
E é por isso que as saudades dele não cabem numa palavra tão pequena.
Tenho saudades do seu sorriso, da sua voz, das suas mãos gastas, do alpendre, dos domingos. Tenho saudades de ser recebida por alguém que me olhava como se eu fosse uma das coisas mais bonitas que a vida lhe tinha dado.
O meu avô já partiu há muitos anos. Mas há amores que não aprendem a morrer.
E o dele continua aqui.
Quieto.
Firme.
A morar em mim. Como se, algures no tempo, aquele homem cansado, de camisa aberta e coração imenso, ainda estivesse sentado no alpendre à minha espera. 
À espera da sua neta preferida