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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Decisões


 

Podia ter ido ver o mar. Sentir o sal na pele, deixar o sol aquecer os ombros, ouvir o riso de um amigo do outro lado da linha. Podia ter escolhido o movimento, o ruído, a distração. Mas fiquei.
E há um paradoxo estranho nisto tudo: muitas vezes sabemos exatamente aquilo que nos faz bem e, ainda assim, escolhemos outra coisa. Não por preguiça. Não por falta de vontade. Mas porque, por vezes, existe um cansaço que não se resolve com paisagens bonitas nem com companhia. Um cansaço que nos chama para dentro.
Passamos a vida a tentar alinhar três coisas que raramente caminham ao mesmo ritmo: aquilo que somos, aquilo que fazemos e aquilo que sentimos.
Há dias em que somos luz, mas sentimos sombra. Há dias em que queremos o mundo, mas escolhemos o silêncio. Há dias em que sabemos o caminho, mas ficamos sentados na berma a olhar para ele.
E isso confunde-nos. Porque julgamos que a coerência é estar sempre a agir de acordo com aquilo que sabemos. Mas a verdade é que somos feitos de contradições. Somos capazes de desejar o abraço e procurar a solidão. Precisar de descanso e não conseguir repousar. Ter saudades da vida e, ao mesmo tempo, não ter força para a viver naquele dia.
Talvez a parte mais difícil de ser humano seja esta: aceitar que nem sempre fazemos o que nos faria felizes e nem sempre sentimos aquilo que faz sentido sentir.
Às vezes, ficamos em casa enquanto o mar nos espera lá fora.
E talvez, naquele momento, não seja uma derrota. Talvez seja apenas a alma a tentar dizer-nos qualquer coisa numa linguagem que ainda não aprendemos completamente a traduzir.
O silêncio nem sempre é ausência de vida. Por vezes é apenas o lugar onde a vida se senta, à nossa frente, e nos obriga a escutar o que andamos há demasiado tempo a evitar ouvir. E isso pode ser doloroso. Mas também pode ser o princípio do regresso a nós mesmos. E eu preciso de regressar a mim. Porque tenho muitas saudades minhas.
Porque há dias para correr para o mundo.
E há dias em que a maior viagem é ficar. Mesmo quando o silêncio se ouve mais alto do que as ondas do mar

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Fases...


 Há fases da vida que não chegam como tempestades. Chegam como marés.
Há algum tempo que vivo numa delas. Não uma tempestade capaz de arrancar árvores pela raiz, nem um vendaval que destrói tudo de uma só vez. Apenas uma corrente silenciosa que me vai levando, devagar, para longe dos lugares onde deixei de me reconhecer. E talvez seja isso que mais custa explicar: não estou perdida. Estou a partir.
Tenho passado os últimos tempos a despedir-me de versões minhas. Não de quem sou, mas de quem fui por necessidade, por sobrevivência, por responsabilidade ou simplesmente porque a vida assim o exigiu. Tenho arrumado gavetas invisíveis, fechado portas que ficaram demasiado tempo encostadas e aprendido que algumas despedidas não acontecem de uma vez. Acontecem aos poucos, na coragem diária de já não ficar onde o coração deixou de morar.
Sou feita de pele fina e de oceanos fundos. Sempre fui. Sinto o mundo com demasiada intensidade para os tempos em que vivemos. Escuto silêncios, percebo ausências, recolho dores que nem sempre me pertencem e guardo detalhes que a maioria das pessoas deixa escapar. Durante muito tempo achei que isso era um peso. Hoje começo a acreditar que talvez seja apenas a forma que a minha alma encontrou para existir.
Mas há um cansaço que nasce quando permanecemos demasiado tempo em lugares onde já não florescemos. E eu cansei-me de me regar em terrenos que já não me querem verde.
Há noites em que me sinto uma casa em obras, com as paredes abertas e o pó suspenso no ar. Há dias em que caminho por corredores de nevoeiro sem saber exatamente onde fica a porta de saída. E, ainda assim, continuo. Porque aprendi que ficar onde já não sou feliz também é uma forma de naufrágio.
Tenho medo, claro. Quem não tem? Mas há uma coragem silenciosa em quem se recusa a acomodar-se à infelicidade. Há uma coragem enorme em quem escolhe a incerteza do caminho em vez da tristeza da permanência.
Por isso continuo.
Continuo mesmo quando a estrada parece não acabar. Continuo mesmo quando o mundo me pede respostas que ainda não tenho. Continuo porque há uma voz dentro de mim, velha, teimosa e luminosa, que se recusa a deixar-me adormecer naquilo que me apaga.
Não estou parada. Estou em travessia.
E as travessias raramente são bonitas enquanto acontecem. São feitas de dúvidas, de cansaço, de perguntas sem resposta e de dias em que parece que nada muda. Mas, talvez, a mudança não esteja a demorar demasiado. Talvez esteja apenas a ensinar-me a caminhar devagar. A confiar no que sinto. A perceber que mudar de rumo não é falhar, que recomeçar não é perder e que deixar para trás aquilo que já não faz sentido também é uma forma de amor.
Vivo entre quem fui e quem ainda não conheço. Não pertenço totalmente ao passado, mas também ainda não cheguei ao futuro. Sou uma ponte suspensa entre duas margens. E há dias em que esse lugar intermédio dói. Porque exige paciência. Porque pede fé. Porque obriga a acreditar em algo que ainda não consigo ver.
Tenho aprendido que a esperança não é uma luz gigante ao fundo do túnel. É uma pequena brasa que transporto nas mãos, mesmo quando venta. É continuar a escolher-me quando tudo à volta me pede que me acomode. É recusar a vida morna em troca da possibilidade de uma vida inteira.
Já não quero lugares onde apenas sobrevivo. Quero lugares onde respiro.
Já não quero caber. Quero pertencer.
Já não quero ser forte o tempo todo. Quero ser inteira.
E se esta mudança insiste em não passar, talvez seja porque não veio para passar. Veio para me atravessar. Veio para partir em mim tudo aquilo que já não me serve e devolver-me, lentamente, à mulher que sempre fui.
Sou rio em movimento. Sou maré em regresso. Sou uma casa à procura das suas próprias janelas.
E talvez a esperança seja exatamente isto: não a certeza de que tudo vai correr bem, mas a decisão de continuar a andar, mesmo quando ainda não se vê o destino.
Porque, no meio desta travessia, há uma coisa que já mudou para sempre: aprendi que a minha felicidade também merece ser uma prioridade.
E depois de aprendermos isso, já não há regresso possível.
Talvez eu não esteja a perder-me.
Talvez esteja, finalmente, a chegar a casa