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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Partida...

 


Há trabalhos que nos cansam o corpo.
E depois há aqueles que, devagarinho, nos cansam a alma.
São os trabalhos onde damos mais do que aquilo que aparece num recibo de vencimento. Onde ninguém vê as horas em que ficámos depois da hora. As vezes em que engolimos palavras para não criar conflitos. As vezes em que chegámos a casa ainda a carregar o dia às costas. Ninguém vê o esforço de continuar a fazer bem quando já não estamos bem. Ninguém vê quantas vezes nos levantámos sem vontade, apenas porque havia alguém à nossa espera.
E talvez o mais perigoso seja a esperança.
Porque a esperança, quando existe, faz-nos ficar.
Faz-nos pensar que amanhã pode ser diferente. Que talvez aquela conversa resulte. Que talvez alguém repare. Que talvez reconheçam. Que talvez, se tentarmos mais uma vez, se formos mais pacientes, mais compreensivos, mais disponíveis, mais qualquer coisa… as coisas finalmente encontrem o lugar certo.
E continuamos.
Até ao dia em que percebemos que já não estamos a viver. Estamos a sobreviver.
Entramos em modo automático. Fazemos o que é preciso. Sorrimos quando é necessário. Cumprimos. Aguentamos. Voltamos para casa. Dormimos mal. Acordamos cansados. E repetimos.
Até que percebemos uma coisa assustadora: já estamos a abdicar de tudo aquilo que somos para conseguir permanecer num lugar onde já não conseguimos ser nós próprios.
E então chega a escolha mais difícil.
Não entre ficar e partir.
Mas entre continuar a perder-nos ou perder aquilo que, durante tanto tempo, tentámos salvar.
Porque partir também dói.
Dói quando ainda existe amor pelo trabalho.
Dói quando existem pessoas que queremos levar connosco.
Dói quando sabemos que demos tudo.
Dói porque uma parte de nós continua a perguntar: e se eu tivesse tentado mais?
Mas há uma crueldade particular em chegar ao fim depois de termos feito tudo.
Porque não há mais nada para tentar.
E isso traz um estranho misto de sentimentos: tristeza e alívio. Culpa e orgulho. Medo e liberdade. Saudade de algo que ainda nem terminou. Raiva pelo que nos fizeram sentir. Gratidão pelo que foi bonito. E uma paz pequenina, quase tímida, por finalmente termos escolhido ficar do nosso lado.
Talvez seja isso que ninguém entende quando dizemos que fomos embora.
Não fomos embora porque não nos importávamos.
Fomos embora porque nos importávamos demasiado e já estávamos a desaparecer dentro daquilo que tentávamos salvar.
Há momentos em que encontrar a paz exige abdicar de coisas que desejámos muito.
De pessoas.
De lugares.
De certezas.
De expectativas.
De uma versão de nós que acreditava que, se desse o suficiente, seria finalmente suficiente.
E talvez a verdadeira desistência não seja partir.
Talvez seja permanecer num lugar que nos está a ensinar a viver cada vez menos.
Por isso, há partidas que não são fracassos.
São actos de coragem.
São o momento em que finalmente dizemos:
"Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance. Dei o meu tempo. Dei a minha energia. Dei a minha paciência. Dei o benefício da dúvida. Tentei compreender. Tentei conversar. Tentei ficar. Tentei mudar. Tentei outra vez."
E depois, um dia, simplesmente já não há mais nada para dar.
Só resta devolver-nos a nós próprios.
E talvez seja essa a parte mais bonita de todas:
descobrir que a paz não chegou quando conseguimos fazer aquele lugar funcionar.
Chegou quando percebemos que já não precisávamos de o fazer funcionar para podermos ficar bem. 

vou voltar à minha outra casa...

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