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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Frente a frente com quem fui...


 

Hoje, sentei-me à mesa de um café qualquer, esperando por alguém que já fui.
Ela chegou dez minutos atrasada…como sempre. 
Enquanto eu, pontual, observava o tempo passar com uma estranha mistura de nostalgia e melancolia.
Quando ela entrou, vi nos seus olhos um brilho que já não reconheço em mim. Ela ainda sonha alto, ainda acredita que algumas pessoas ficarão para sempre. Vive com pressa, mas nem sabe exatamente para onde quer ir. 
Neste momento quis avisá-la de tantas coisas, mas, ao mesmo tempo, não quis arrancar-lhe a inocência que um dia me fez continuar.
Ela sentou-se à minha frente, curiosa, desconfiada e sorriu com aquele jeito de quem acha que tem tudo sob controle.
Olhei-a com tristeza e quis dizer-lhe: 
"Ainda não sabes, mas vais chorar por quem nem se importa contigo. Vais  perder-te em noites solitárias, tentando entender onde erraste. Vais duvidar da tua própria força, vais  sentir-te pequena e invisível."
Mas em vez disso, segurei-a pelas mãos e sussurrei: 
"Vai doer, mas sobreviverás. Irás aprender que não precisamos implorar por amor. Vais descobrir que algumas partidas são livramentos, que a solidão nem sempre é um castigo, mas uma oportunidade para te encontrares. Entenderás que ser forte não significa não chorar, e que ser feliz não significa não ter cicatrizes."
Ela  olhou-me como se quisesse perguntar algo, mas não conseguiu. 
Talvez tenha sentido no meu olhar a saudade do que fomos e a dor do que nos tornamos.
O tempo passou rápido, e ela, ainda apressada, disse que precisava ir. 
Como sempre, estava correndo atrás de algo que nem sabia o que era. 
Eu observei-a a afastar-se, e, por um instante, quis chamá-la de volta. 
Quis dizer-lhe que um dia, ela vai chegar na hora certa, no momento certo, na vida certa. 
Mas deixei que ela fosse, porque aprendi que cada um tem seu próprio tempo para entender a vida.
Ela foi embora. Mas parte dela ficou em mim.
E, enquanto o café esfriava, percebi que talvez eu também não tenha chegado no horário certo.
Mas cheguei no meu próprio tempo…

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Indecisões...


                                               "Quando é que combinamos alguma coisa?"

"Queres ir beber um cafezinho?"
"Vamos sair?"

As solicitações repetem-se. De diferentes caras. De diferentes números no visor do telefone. De diferentes nomes. Alguns convites, vá. Não sejamos convencidas, que isso de poder mostrar que se tem uma forte auto-estima, sem parecer mal, é exclusivo do sexo masculino (leia-se com um forte tom irónico). Adiante. São, pelo menos, convites e solicitações suficientes para poder escolher! ......se tivesse vontade, claro. Mas há uma dormência, um desinteresse e um desencanto em mim que me prende. Que me enfastia e me faz querer fugir. Não há, obviamente, nada de errado com os cavalheiros que pedem um pouco da minha atenção. Absolutamente nada de errado. O problema reside em mim. Tenho nos olhos um filtro que tudo (quase tudo...) me faz parecer banal. Tenho no corpo marcas de um fogo improvável de superar. Não há nada de errado com os outros. Sou eu. E eu, sei da minha maleita mas não sei o que fazer comigo. 
O tempo, talvez. 
Talvez esse saiba. 
Talvez esse ajude....

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Quem me conhece sabe...


 

...que não sou de intrigas, gosto de estar no meu canto e não me meto com ninguém.

Quem me conhece sabe que me dou por inteira a quem merecer a minha amizade.

Quem me conhece sabe que sou honesta, verdadeira, sincera.

Quem me conhece sabe que divido o que tenho com quem precisa, sabe que não posso ver ninguém com fome, sabe que já chorei por não poder ajudar mais.

Quem me conhece sabe que nunca trairia um amigo(a), nem por toda a fortuna do mundo.

Quem me conhece sabe que não gosto de promessas que não podem cumprir, por isso nunca prometo nada, mas normalmente cumpro.

Quem me conhece sabe que sou lamechas, que qualquer filme rasca me faz chorar.

Quem me conhece sabe que adoro brincar, que sou meio palhaça e que isso me faz feliz.

Quem me conhece sabe que não perdoo uma traição.

Quem me conhece sabe que gosto de conversar, que falo até demais, mas que também posso ficar horas em silêncio, sem que isso queira dizer que não me importo.

Quem me conhece sabe que eu me importo.

Quem me conhece sabe que já não tenho pais e que choro todos os dias por eles.

Quem me conhece sabe que sou frontal, que digo o que penso mesmo que isso me traga dissabores.

Quem me conhece descobre-me pelos olhos.

Quem me conhece sabe que detesto carne e adoro peixe.

Quem me conhece sabe que gosto do vermelho, que o verde me irrita e o azul dá-me náuseas.

Quem me conhece sabe disto tudo.

Tu…

Tu não me conheces!...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

COISAS MINHAS...


 

Se me perguntarem por ti vou dizer-lhes que estás bem, vou mentir-lhes e dizer-lhes que já não te sinto a falta.
Vou pôr o meu melhor sorriso e fingir que passo bem sem ti.
Porque passo.
Mas não quero.
E se me perguntarem quando foi a última vez que falei contigo, vou dizer-lhes que foi ontem, pois a última vez permanece intacta em mim como se tivesse acabado de acontecer.
E se o meu coração me atraiçoar no meio das perguntas, vou dizer-lhes que a saudade tem destas coisas que tolhem, mas não matam.
E vou convence-los de que é melhor assim, tu aí e eu aqui, vou acreditar nisso com tanta força que, no final estarei convencida disso também.
E, agora que ninguém nos ouve, tenho saudades tuas…
Como sempre…
Apenas deixei de to dizer.
Mas sinto.
E gosto de ti.
Como sempre…

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Perguntaram-me quem sou...


 

Respondi:
Por hoje sou tudo o que quiser
Sou o que quero ser
Sou o que tenho
A verdadeira história está logo ali
Mas eu quero vivê-la aqui
Gosto do que sou
Estou gostando do lugar
Vou até onde conseguir chegar
Não tenho tudo o que quero
Mas tenho a minha companhia
Que faz parte do meu dia a dia
Sou de quem me ama do jeito que sou
Só não sei até quando…
Mas por hoje, sei onde estou.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Costumes...

 







Nos últimos anos acostumei-me a ocupar a cama toda a dormir

A não cozinhar por obrigação

A voltar para casa quando me da na telha

Acostumei-me a não dar explicações a ninguém e a fazer o que gosto sem aceitar críticas de ninguém

Acostumei-me a comer apenas quando tenho fome, pode ser a meio da noite ou de madrugada

Acostumei-me a ver o meus programas musicais favoritos, a cantar em voz alta e a dançar pela casa.

Acostumei-me a responder apenas às mensagens que me agradam, e mesmo assim bem tarde…

Acostumei-me  a sair com amigos, mas principalmente acostumei-me a me divertir sempre.

Acostumei-me ao cheiro do café do vizinho que usa a varanda como esplanada

E a andar descalça na sacada, imagino sempre que é um jardim e não um cemitério de plantas que deixo morrer inadvertidamente.

Acostumei-me a demorar-me em frente ao espelho enquanto me arranjo para sair

Acostumei-me a desmarcar encontros no último momento… só porque sim…

Acostumei-me a mim, às minhas coisas, à minha vida… a ficar sozinha.

Aprendi com o tempo que isso não é solidão, isso é apenas ser feliz comigo mesma

E garanto-vos, é simplesmente maravilhoso.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Sobre os últimos meses...


 

Vestia um conjunto branco de trazer por casa. 
Que se perdia no tom da pele bronzeada. 
Fazia contraste com o rosa das unhas. 
Que fazia contraste com as coisas que sentia. 
Perdia-se, durante horas, numa varanda onde mirava o vazio. 
Mas encontrava paz ali. 
Entre o silêncio e a cerveja. 
Entre amendoim e a brisa que não corria.
Estava cansada dos mesmos lugares e de fazer as mesmas coisas de sempre. Havia em si, uma necessidade urgente, de respirar. 
De vida. 
Sentia que a vida corria ligeira, mas sem emoção. 
Vestia-se de cores, para camuflar o cinza que lhe trespassava o peito. 
Bebia uns tragos, para se esquecer da vida que a escolheu. 
Nalguns dias, esquecia-se demasiado. 
Noutros, voltava tudo à flor da pele. 
Tinha uma ânsia desenfreada de querer fazer dar certo, mas tinha o pé a fundo no travão. 
Já não era medo. 
Era cuidado consigo.
Contava as horas e os dias que passavam através de uma janela. 
Como se fosse um portal que a transportaria para um qualquer outro lugar. Gostava de ouvir o cheiro a vida das outras vidas. 
Gostava de ouvir a música da vizinhança e os gritos das crianças nos passeios. Gostava de saber as cores das roupas estendidas nas cordas nos apartamentos de frente. 
Gostava de ouvir o aspirador soar no carro do vizinho chato. 
Gostava do sol a bater-lhe na cara. 
Numa mistura de "gosto de estar aqui, mas queria estar noutro sítio". 
Gostava destas coisas pequeninas. 
Que lhe pareciam gigantes, vistas da sua janela. 
Gostava desta liberdade de poder escolher os seus momentos, ao mesmo tempo que se angustiava na falta de um "como foi o teu dia?