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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Medos...


 

Assustam-me os silêncios que tento decifrar por minha conta. 
Assustam-me as pessoas que dizem "para sempre" de coração fechado. 
Assustam-me as palavras sem sentido misturadas com beijos de olhos abertos. Assustam-me os abraços sem aperto e os olhos cheios de nada. 
Assusta-me quem diz "vou ficar" sem a noção de que ainda nem sequer chegou. Assustam-me os que me lêem os medos sem que tenham descoberto os próprios. Assustam -me os que não dançam com quem lhes mostrou a música. 
Assustam-me os que não perdem um segundo com quem parou o relógio. 
Assustam-me os que sentem tudo e dizem nada sentir. 
Assustam-me os que despem o corpo para não verem a alma. 
Assustam-me os que levam flores aos mortos e não cuidam dos vivos. 
Assustam-me os que deixam tudo para amanhã sem terem vivido o hoje. 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Ela é tão diferente das outras...

Ela é tão diferente das outras... 
Ela já passou por tanto e isso não a fez amarga. 
 Não lhe tirou a doçura, não a fez menos intensa. 
 Ela sabe exatamente o que quer das pessoas e como fazer o tempo com elas valer a pena. 
Sabe rir dela própria e das situações que, tantas vezes, não são para rir. 
Já sofreu por amor, já se destruiu e já se reinventou. 
 Ela não te pede para ficar, porque sabe que o amor não se mendiga. 
 Pelo contrário, ela faz-te permanecer na sua vida porque gosta de deixar as coisas num patamar bonito. 
 Porque em algum momento as pessoas foram importantes e, dependendo dos actos, há sempre lugar para lembranças e para a amizade. 
Ela não gosta de gente mal humorada, de gente que não sabe rir. 
 Não gosta de esperar, mas espera uma vida inteira se valer a pena. 
 É a mesma que sai pela madrugada e a mesma que chora sozinha num quarto. 
 É a mesma que gosta de uma mesa cheia de gente e a mesma que pede silêncio para ler um livro. 
Ela pode ser o doce e o agreste. 
 A dor de cabeça e a cura numa só pessoa. 
 É perfeitamente imperfeita e aprendeu a gostar dela assim. 
 Já não faz fretes e não quer saber do que os outros pensam a respeito dela. 
 Ela sabe quanto vale, mesmo que às vezes o negue. 
 É durona, mas sensível. 
 É rude, mas romântica. 
 Calça sapatilhas e usa batom. 
 Ela gosta de chuva, mas não gosta de molhar o cabelo. 
 É cheia de peculiaridades e é isso que a destaca. 
 É profunda no sentir e desligada à superfície. 
 Confia desconfiada. 
 Mas ouve o coração, mesmo que isso a magoe tantas vezes. 
 Mas vive. 
 E quando gosta não há como não se dar. 
 Ganha certezas e tem poucas dúvidas, porque não lhe tiraram a capacidade de acreditar, de sonhar. 
 Cheia de medos? Quantas vezes! 
 Mas ela sabe que o medo não é maior do que ela... 
 E foi no medo que tantas vezes foi feliz. 
 No incerto, nos acasos que nunca o são. 
 E isso ninguém lhe tira. 
 Ela tem o génio difícil, ela sabe disso, mas quem a atravessa por dentro, sabe toda ela é cor. 
Ela é incrível e (já) não aceita que a tratem por menos do que isso.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Encantos meus


 

Encanto-me sempre nas pequenas coisas. 
Nos detalhes. 
Nos pormenores. 
Naquela mensagem de bom dia. 
Naquele telefonema "só para saber de ti". 
Encanto-me na simplicidade de um gesto que eu consiga perceber que pensaram em mim.
Ganham-me sempre por aí. 
No cuidado. 
Na atenção. 
No trato. 
Não preciso de grandes feitos, mas que não se descure o simples... 
Que vai tantas vezes para além do óbvio.
É nos pormenores que vemos a importância que nos atribuem. 
É nesse cuidado de todos os dias que nos acrescentam. 
É nessa simplicidade das pequenas coisas, que nascem os sentimentos mais profundos e bonitos.
E o que para tantos é irrelevante, para mim, é essencial. 
Não sei viver sem isso. 

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Senta-te aqui...


 

Quero-te contar como foi o meu dia hoje.
Quero-te falar daquele livro que eu li e me fez pensar que quero viver uma história assim. 
Quero-te mostrar aquele filme que me fez chorar e que gostava de tê-lo visto contigo.
Senta-te aqui...
Quero-te mostrar todas as particularidades do meu ser, até as mais estranhas...
Senta-te aqui...
Quero-te mostrar as fotos que tirei no outro dia, quando fui ver o mar e jurei baixinho que um dia também estarias ali.
Quero-te falar dos bolos que sei fazer e quero-te dizer como gosto de tomar o meu chá. Quero-te mostrar o batom novo que comprei e que, provavelmente não usarei, mas que combina com o vestido por estrear há anos no armário.
Enquanto eu preparo o jantar e tu abres uma garrafa de vinho e dizemos parvoíces de sorriso rasgado.
Quero-te mostrar o último texto que escrevi com o meu coração pousado em ti...
E quero que ouças aquela música nova daquele cantor que, nem sabes quem é, mas que eu te vou fazer ouvir...
Vou apresentar-te os meus amigos e o que gosto de beber e espero que te sintas em casa.
Vou mostrar-te a minha colecção de sapatilhas e ai de ti que digas que são demasiadas...
Quero que saibas quem sou em cada lugar onde te levar, em cada frase feita, em cada entrelinha.
E diz-me, se vens por um instante ou por uma vida inteira...


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Na estrada da vida...


 

Encontraram-se, por acaso, numa rua desta vida...
Cruzaram-se num caminho incerto que, provavelmente, não os levaria a lado nenhum.
Sabiam exatamente quais eram os obstáculos e sabiam que se tinha descontrolado tudo aquilo que não previram.
Precisavam decidir a angústia entre o ir e o ficar, precisavam pensar menos e apenas permitirem-se viver...
Ambos sucumbiram ao sentimento.
Ambos se entregaram com a consciência de um futuro improvável...
E ambos não sabem o que fazer com o medo.
Querem muito ser felizes, mas não têm a certeza de isso poder acontecer em conjunto.
Ambos se querem e se sentem...
E ambos estão à procura de razões para que isso não aconteça.
Querem estar juntos, mas não querem sofrer.
Querem deixar-se ir, mas ainda levam os freios no coração...
E demasiadas nuvens na cabeça.
Encontraram-se por acaso e não sabem se a vida lhes permitirá mais encontros.


quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Pessoas...


 

As pessoas mostram -nos sempre qual é o lugar que ocupamos nas suas vidas. Mostram com palavras, mas principalmente com acções. 
A prioridade que te dão fica por conta das vezes que (não) te procuram. 
Nas desculpas esfarrapadas que se perdem no ridículo. 
Nas coisas que fazem nas tuas costas quando acham que ninguém está a ver. 
Nos interesses colocados acima dos valores. 
Nos silêncios que ocultam o que já desvendamos há muito. 
As pessoas dão sinais. 
Sempre. 
E nem sempre são claros em primeira instância ou nem sempre queremos ver. Mas estão lá. 
E, como em tudo na vida, vai doer, mas também vai passar.
Eu já não pergunto o porquê. 
Já não peço justificações. 
Porque nada do que possa ser dito vai atenuar a acção. 
Porque, ainda assim, na maioria das vezes, as pessoas escolhem sempre o caminho da desonestidade. 
Da falta de princípios. 
Então não me permito perder tempo a ser enganada de novo. 
Primeiro assisto. 
Depois tomo notas. 
E depois afasto-me. 
A minha sanidade mental depende disso. 
De tirar de perto de mim tudo o que não me acrescenta. 
De saber que nem toda a gente vale tanto e de que eu não mereço tão pouco.
Nunca conhecemos verdadeiramente as pessoas. 
E, quem dorme connosco na cama, quem come connosco na mesa, são por norma, os primeiros a puxar o tapete. 
E se não tens certezas, mas ainda assim duvidas, sai. 
Em silêncio. 
Porque a dúvida é tudo aquilo que é semeado onde falta verdade. 
E onde há verdade, não há dúvida.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

E se...


 

Finge que nos vimos pela última vez... 
Que dissemos as últimas palavras e que também aquele abraço foi o derradeiro. Fecha os olhos e imagina que nunca mais nos veremos, nem nos sentaremos à mesma mesa. 
Finge que a vida acaba aqui e lembra-te dos lugares que visitamos e os tantos que ficaram sem nós. 
Lembra-te das coisas bonitas que temos guardadas e das vezes que pensamos que o tempo não acabaria nunca. 
Imagina o meu contacto no telemóvel sem a presença. 
Imagina as lembranças sem o corpo. 
Pensa nas vezes em que não te perguntarei se estás bem ou nas mensagens que não chegarão para saber de ti.
Pensa nos risos que partilhamos e nas coisas parvas que não se repetirão... 
Nas confissões da madrugada entre copos, nos sonhos pousados em cima dos medos que, tantas vezes, deixamos que levassem a melhor.
Finge que (já) não estou aqui e que a minha voz se cala, e diz -me o que ficou por dizer... 
Conta -me o que faltou fazer. 
Finge que não te vou ouvir e diz-me o que queres dizer como se estivesses sozinho(a) no mundo... 
Finge que nos vemos pela última vez e conta-me tudo como se os dias se fossem tornar eternos e nós imortais. 
E eu... 
Eu finjo que não parti e que amanhã teremos mais uma oportunidade de transformar o último dia.