quinta-feira, 19 de abril de 2018

Inventores de palavras vazias




Às vezes as pessoas prometem o céu, dizem que se preocupam verdadeiramente contigo, que és especial, que te adoram, que te levam às nuvens e te protegem da queda. 
Que jamais te vão abandonar ou mesmo magoar. 
Prometem ficar para sempre, num reportório ensaiado, adiam-te os medos. 
Mas, às vezes, as pessoas mentem.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

O cenário era sempre o mesmo...

 
Quatro paredes, o escuro e a arritmia do silêncio... 
E lá estava ela, a fugir uma vez mais dos pensamentos. 
E lá estava ela, a ouvir a velocidade do tempo.
O sono era a companhia que não tinha, fechava os olhos e não dormia.
Ela era ela, como tantas outras num cenário só... onde o só ela adormecia, num sono que não vinha. Ela sabia, e só ela sabia, porque dos pensamentos fugia, porque chegava o dia e ela pela noite não dormia.
Levantava... Sentava... Sentia... Deitava... Esquecia... Fingia.
Era um ciclo vicioso... Há quem chame insónias aos pesadelos sem sono. O silêncio, o tempo, o escuro, sobretudo o da vida.
Os pensamentos que lhe fervilhavam na mente, ela não os queria, mas a madrugada tropeçava num ontem que sentia.
A única voz era a dela... A voz dela quente, com alma dela fria.
Esperava o sol para acordar o dia.
Colocou dentro dela a música e o céu... ouviu baixinho o silêncio que a noite ouvia. O olhar estagnado no nada o mesmo que de dia sorria.
Eram assim as batalhas nocturnas... quando as insónias de frente lhe batiam
.




Carla Tavares

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Sou mais dada a silêncios…





O chacoalhar constante de certas frases nos meus ouvidos deixa-me perto da demência.
Gosto do que não se precisa dizer, do óbvio, de frases curtas, de pessoas constantes.
Não gosto que me tentem manipular com frases feitas, clichês ultrapassados, ou ameaças vãs.
Gosto de pessoas que falam com sorrisos, olhares intensos, e gestos mudos.
Não gosto da falsidade que se esconde por trás de grandes discursos previamente estudados.
Gosto do improviso, das palavras oportunas, do aconchego de uma tertúlia.
Não gosto de gritos e gestos agressivos.
Gosto de letras soletradas em tardes calmas.
Não gosto que invadam o meu espaço com conversas arrogantes e citações descabidas.
Gosto da simplicidade das gentes da aldeia, da sabedoria dos mais velhos, gosto de tudo aquilo que não se aprende nos livros.
Não gosto de pessoas mornas, aquelas que nem sequer têm capacidade de me fazer odiá-las ou amá-las.
Gosto de gente com atitude, que arrisca, mesmo fazendo asneiras demonstram que têm coragem.
Gosto de serões à lareira, chocolate quente, e manta polar.
Não gosto de bares apinhados, de flirts supérfluos, e madrugadas na rua.
Não gosto de pessoas que falam demais.
Irritam-me!...



quinta-feira, 5 de abril de 2018

É tão mais fácil escrever na terceira pessoa...


Fizeste tantas promessas de amor eterno, prometeste tantas vezes que não a abandonarias nos momentos de tristeza, prometeste-lhe o mundo e abandonaste-a no exacto momento em que a fragilidade era a palavra que melhor a definia. Estava frágil e já tinha derramado toda a possibilidade de lágrimas que o seu corpo era capaz de produzir. Abandonaste-a e obrigaste-a a chorar sem lágrimas e chorar sem lágrimas é a dor de quem perde tudo e não tem caminhos que lhe permitam seguir em frente.
 Mas tu seguiste em frente, encontraste outras pessoas pelo teu caminho, fizeste outras tantas promessas de amor, delineaste, para ti, uma imensidão de objectivos e ainda vives como se não houvesse amanhã. Mas falta-te amor. O amor que ela te dava, apesar e acima de tudo. Ela não te abandonou nos momentos em que precisaste do ombro dela para chorar, ou da mão dela para te limpar as lágrimas. Ela não te abandonou.
 Mas tu acreditas que tiveste sorte e esqueceste que sorte era puderes tê-la na tua vida. Porque, quando ela percebeu que não havia um caminho que lhe permitisse seguir em frente, atirou-se pela floresta. Se teve medo do escuro? Teve, claro. Se tropeçou nas pedras que não conseguia distinguir por falta de luz? Tropeçou, claro. Mas foi delineando um caminho de possibilidades. Alisou as terras, arrumou as pedras para o lado e caminhou. Em direcção a onde? Ao infinito. Não tenhas dúvidas de que o destino dela é o infinito. O destino dela é o mundo que lhe prometeste.
 Assim que foste embora, ela viu o que não a deixavas ver, descobriu o que não a deixavas descobrir. Porque ela era cega por ti. Era, porque no caminho compreendeu que não precisa de caras metades. Tem-se a ela e é suficiente.
 Não, ela não morreu pela falta do teu amor. Ela viveu. Não, ela não é infeliz. Hoje, ela é feliz e a culpa é toda tua.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Era suposto ser tu e eu. Não um nós.

 
Não era suposto. Foi apenas o que consegui pensar naquele momento. Não era suposto estarmos ali. Era suposto ser eu e tu. Não um nós. Um nós assim. Um nós tão estranhamente bom. Um nós tão desmedidamente intenso.

Não era suposto sentir saudade. E eu sinto. Aquela saudade boa, sabes? Aquela saudade que nos dá ao coração a certeza de que os momentos de felicidade somos nós que os fazemos quando conseguimos estar em verdade connosco e não precisamos de filtrar aquilo que somos. Aquela saudade que nos dá ao coração a certeza de que há coisas tremendamente boas nas coisas más. A certeza de que até nos destroços de um terramoto há um pequeno elemento, por mais pequeno que seja, a que nos podemos agarrar e construir, de novo, a partir dali. 

Mas, depois, há o medo. Aquele que nos obriga a pensar duas e três vezes. Aquele que nos tenta contrariar as emoções. Aquele que nos tenta desligar do que sentimos no coração. É o medo de voltar a doer. Medo de que o amor volte a doer. Medo de voltar a sentir algo que nos transcende o corpo. Medo de perder a razão e agir com o coração. Medo de que até nem seja amor e seja apenas mais uma ilusão, mais alguém que funciona como uma espécie de cortina que oculta a nossa própria realidade.

Ou talvez seja, de facto, um sinal do universo. Um sinal que são estes momentos que ficam escritos no livro da nossa vida, estes momentos em que estamos absolutamente felizes, sem pensar num futuro, sem pensar no longo prazo, estes momentos em que importa o aqui e o agora e o passado foi só uma sucessão de acontecimentos que nos trouxe este presente. Talvez seja esse sinal, essa certeza de que não importa se é para sempre ou não, importa sim que seja verdadeiro enquanto é amor. 
 
 
O amor não é mel

sexta-feira, 23 de março de 2018

Ela estava ainda a aprender...


 

 A tentar desenvencilhar-se de si própria.
Não estava habituada.
Nunca lhe tinham ensinado a partilhar.
A partilhar-se.
Toda a sua vida tinha estado à margem dos outros.
De se dar.
Tinha vivido sempre na sua própria concha.
Mostrava apenas o estritamente essencial.
Não sabia que coisa era essa de dividir os sonhos e os medos com outra pessoa.
Nunca tinha partilhado uma mesma frequência de pensamento com alguém.
 Faltava-lhe a técnica.
Mas estava a aprender....