Hoje começou com uma despedida.
Uma colega que se foi, levando consigo aquela presença discreta que já fazia parte do cenário dos dias. Quando alguém parte, não é só a pessoa que desaparece. Ficam as rotinas quebradas, os pequenos gestos que já não vão acontecer. A vida, ali, mostra o lado cru: o de lembrar que tudo é passagem. A cadeira vazia que não mais será ocupada por ela. Os abraços da família que, fazem dela eterna.
Mais tarde, como quem equilibra a balança, trouxe-me um reencontro.
Um amigo que não via há algum tempo. Conversa solta, riso fácil, a sensação rara de voltar a um lugar onde já fomos felizes. Há pessoas que, mesmo depois de uma ausência, continuam a caber no mesmo lugar dentro de nós.
E depois houve a esplanada.
Um homem aproximou-se e perguntou se podia comprar um cigarro.
Não pediu. Perguntou se podia comprar. Aquilo ficou-me atravessado no pensamento. Que vida é esta em que alguém tem de ganhar coragem para abordar um estranho por causa de um cigarro?
Sentou-se. Pediu um chá de camomila.
E eu fiquei ali, a pensar nas voltas silenciosas que a vida dá às pessoas. Na dificuldade que,às vezes,mora dentro da dignidade. Porque naquele gesto não havia miséria,havia educação. Havia humildade. Havia um cuidado quase antigo em não incomodar demasiado o mundo.
Levantei-me.
Paguei o chá.
E eu que nem fumo, deixei-lhe um maço de cigarros.
O dono do café perguntou:
“Entrego agora?”
E eu respondi:
“Deixa-me ir embora.”
Não foi por vergonha.
Foi porque há gestos que só são verdadeiramente bonitos quando ninguém está ali para ver a reação.
E no fim do dia percebi isto:
hoje vi a vida nos seus três tons mais honestos: a despedida que dói, o reencontro que aquece e a dignidade silenciosa de um desconhecido a pedir apenas um cigarro… como quem ainda tenta manter de pé a última parede da própria casa.
Presente na despedida de alguém.
Presente no reencontro de um amigo.
E presente o suficiente para ver dignidade onde outros talvez só vissem um homem a pedir um cigarro.
Essa paz costuma aparecer quando sabemos, cá dentro, que fizemos o que era certo. Sem teatro. Só humanidade.
Dormir assim… é dormir leve.
Há dias que fazem barulho… e há dias que, depois de tudo, acabam assim, numa paz tranquila, quase como uma maré que finalmente ficou lisa. E sabemos o quanto são precisas as marés baixas.

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