Não da pessoa que sou hoje. Dessa, vejo-me todos os dias ao espelho, ouço-lhe os pensamentos, conheço-lhe os medos, os horários, os cansaços e as rotinas. Tenho saudades de outras versões de mim. Daquelas que ficaram pelo caminho enquanto eu aprendia a sobreviver.
Tenho saudades da mulher que ria sem fazer contas ao dia seguinte. Da que acreditava que o tempo era uma coisa infinita e que as pessoas importantes ficavam para sempre. Tenho saudades da pessoa que se sentava ao sol apenas porque o sol existia, sem sentir culpa por estar parada. Da que não carregava o peso do mundo nos ombros nem tentava salvar tudo e todos.
Tenho saudades da minha leveza.
Não porque a vida fosse mais fácil. Talvez nem fosse. Mas porque eu ainda não tinha aprendido a medir tudo pelo desgaste. Ainda não sabia que algumas despedidas acontecem sem ninguém partir. Que há sonhos que morrem devagarinho. Que há cansaços que se instalam no corpo como quem muda de casa e decide ficar.
Tenho saudades da forma como olhava para o futuro. Havia mais curiosidade do que medo. Mais expectativa do que prudência. Mais coração do que defesa.
Às vezes,penso que as pessoas imaginam que as saudades são sempre dos outros. De quem amámos, de quem perdemos, de quem partiu. Mas existem saudades mais difíceis de explicar: as saudades de nós próprios.
Saudades daquilo que éramos antes das desilusões. Antes dos lutos. Antes das responsabilidades. Antes das batalhas que ninguém viu.
Saudades da pessoa que existia antes de aprender a esconder o choro, antes de engolir palavras, antes de perceber que nem todos os esforços mudam as coisas e que nem todos os amores sabem ficar.
E, no entanto, há uma verdade estranha nisto tudo.
A pessoa de quem tenho saudades não desapareceu.
Está escondida.
Debaixo das camadas de cansaço. Debaixo das preocupações. Debaixo das feridas que a vida foi deixando.
Ainda vive em mim quando me sento ao sol e sinto paz por alguns minutos. Quando rio até me doer a barriga. Quando encontro um amigo que me faz sentir em casa. Quando o mar me devolve silêncio. Quando alguma coisa simples me emociona sem pedir licença.
Talvez as saudades que sinto não sejam de alguém que perdi.
Talvez sejam um chamamento.
Uma voz antiga dentro de mim a lembrar-me quem sou para lá das funções, dos problemas, das obrigações e dos dias difíceis. Uma voz que me sussurra que ainda estou aqui. Que não desapareci. Que apenas me afastei um pouco de mim mesma.
E talvez o trabalho mais importante da vida não seja encontrar o amor, o sucesso ou as respostas certas.
Talvez seja regressar.
Regressar a casa.
E, às vezes, a casa somos nós. Nós, antes do mundo nos endurecer. Nós, depois de aprendermos tudo o que tínhamos de aprender. Nós, inteiros outra vez.
Porque há saudades que não pedem passado.
Pedem reencontro.

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