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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Fui ali... já volto...




Não era a guerra, mas eram as trincheiras. 
Era o medo. 
A saudade de quem fica para trás. 
A angústia e a incerteza de não saber o que trazemos agarrados à pele... 
Era a luta sem rosto. 
Mas é a certeza de que tudo foi feito. 
Que a consciência dorme tranquila. 
Faço pelos meus e pelos filhos de ninguém. 
Desejem-me sorte e coragem... 
E que os dias longos se tornem mais curtos...
Passei um dia inteiro a questionar: "porquê eu?" ' Porquê a mim?" 
Eu quero acreditar que me estava destinado pelas melhores razões. 
E não sou hipócrita, pensei em virar as costas confesso... 
Mas sei que os meus estão bem e os outros estarão ou não.
Expliquei à minha sobrinha o que ia fazer e ouvi: "tenho muito orgulho em ti"! Sei que vou pelas razões certas. 
Pelos que deixo e pelos que vou encontrar.
Hoje faço a mala... 
Não sei por quantos dias porque não me considero invencível ou imortal... Faço para ir até onde der. 
Faço para amparar os que já estão em queda livre.
E eu tenho tanta sorte. 
Pelos que me querem bem. 
Pelos que me amam. 
E pelos que amo também. 
Prometo voltar depressa.

quarta-feira, 18 de março de 2020

É aterrador o momento que se vive...


Pela incerteza, pela angústia, pelos que nos doem nesta jornada, pelos que não chegarão ao fim dela. Mas pode ser também o momento de ressignificar toda uma vida.
Talvez hajam coisas boas a retirar desta experiência. Talvez, este caos nos traga a maior lição, aquela para a qual não estudamos... a da empatia, da solidariedade, do cuidado e, principalmente, do tempo. Agora que sobra e nem sabemos que utilidade lhe dar.
Eu quero acreditar que nos tornaremos pessoas melhores, que seremos capazes de reflectir sobre tudo o que está a acontecer e que, na pior das hipóteses, aprendamos a dar valor ao que,tantas vezes, desprezamos.
É uma situação completamente nova. Não tem protocolo ou manual de instruções e várias vozes se levantam e muitas opiniões circulam. Destila-se ódio e julgam-se atitudes. Achamos sempre que faríamos melhor. Não é o momento para politiquices, fundamentalismos religiosos ou teorias da conspiração. Agora, mais do que nunca, a única coisa que nos é pedida é que sejamos humanos. Seres humanos. Só isso. Paremos de procurar problemas onde já nasceram soluções e aceitemos que há gente a trabalhar arduamente, a dar o que tem e o que não tem para fazer o seu melhor. Se vai agradar a toda a gente? Não! Nunca vai. As pessoas nunca estão contentes. Não sejamos cínicos, nem hipócritas. Todos, mas todos sem excepção têm que fazer a sua parte,por mais insignificante que possa parecer e fazer cedências, se preciso for. Estabelecer prioridades e colocar todas as variáveis na balança. Isto não é uma luta unilateral. Isto é a derradeira prova de humanidade. É termos plena consciência de que nunca mais seremos os mesmos e que o lugar onde estávamos ontem não permanece intacto. Precisamos uns dos outros e de nos colocarmos no lugar uns dos outros, independentemente de tudo. Se nos cuidarmos mutuamente, nunca nos faltará nada.
E se,no final disto não aprendermos nada, então nascemos humanos por engano... Mas pelo menos, agora que não falta tempo, ensinemos isto aos nossos filhos.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

O passado hoje apareceu-me à frente.


 Inesperadamente...
E quantas vezes eu quis esse momento. 
Não pelo sentimento, mas pelo que ficou por esclarecer. 
Pelo ressentimento, pela mágoa causada, pelas mentiras, pela negligência. Achei que quando isso fosse acontecer que me sentiria com vontade de dizer o que ficou guardado. 
Achei que a revolta tomaria conta de mim e gritaria tudo que estava preso nas entranhas.
Não foi isso que aconteceu. 
Dei por mim a agradecer mentalmente e a sorrir. 
Já nenhuma conversa me prendia ali e percebi que dentro de mim estava tudo mais do que resolvido. 
Nem dor, nem angústia,nem coisa nenhuma. 
Pelo contrário, olhava e recordava todo o filme dessa história, todas as coisas e percebi naquele momento que lhe devia agradecer. 
Pelas lições, pelas quedas sem amparo, mas principalmente pelo livramento. Sem isso, talvez ainda hoje estivesse agarrada a uma situação sem respeito, sem confiança... Sem absolutamente nada.
E hoje eu sei que ter passado por isto foi o melhor que me poderia ter acontecido. 
Hoje eu sei que quem perdeu nunca fui eu.
Hoje estou muito mais feliz, muito mais bonita, muito mais mulher... 
Já tu, cada vez mais na mesma.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Gostava...



Gostava de entrar na tua mente e viajar pelos teus pensamentos. 
Saber em que pensas quando te venho à cabeça. 
Saber o que sentes quando ouves o meu nome. 
Gostava de entender-te um bocadinho melhor, para além do que me consegues dizer. 
Gostava de saber se as tuas mãos suam quando sabes que me vais ver. Gostava de saber se o teu coração treme fora do peito quando me alcanças.
Gostava de ser o teu primeiro pensamento da manhã e o último antes de fechares os olhos à noite. 
Gostava de ter as respostas para as tuas perguntas e gostava de deixar de te fazer perguntas. 
Gostava que pudéssemos simplesmente existir, sem complicações, sem medos, sem restrições.
Gostava que me lesses em tudo o que eu não escrevo e que me lesses nos olhos... 
Que conseguisses decifrar-me em cada silêncio, em cada sorriso e em cada toque.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Mudanças...


Ele chegou de mansinho. 
Ela não queria confusões na sua vida. 
Ele disse-lhe várias vezes que deviam isso um ao outro... 
O poderem olharem-se nos olhos e com isso fazerem o que entendessem.
Ela fugiu várias vezes. 
Ele ficou em cada uma delas. 
Ela inventou desculpas para isso não acontecer. 
Ele tentou mostrar-lhe o caminho de todas as vezes.
Ela procurava razões para não o fazer. 
Ele procurava precisamente o contrário... 
Que todas as razões eram mais do que válidas para que acontecesse.
Ele sabia exactamente o que dizer. 
Ela sentia-se tranquila. 
Ele transmitia uma segurança da qual ela já não se lembrava.
Ela tinha medo. 
Ele também, mas isso não o assustou. 
Ele disse que a deixaria seguir a sua vida. 
Ela voltou atrás.
Viram-se. Tocaram-se. Abraçaram-se...
E nunca mais se largaram.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Penso demais... eu sei...



Queria pensar menos. Queria não me preocupar tanto. Gostava de não antecipar tudo. Queria chegar e viver. Houve tempos que era assim. Deixava para pensar depois. Levava a vida de uma forma despreocupada e o que quer que fosse acontecer, eu ia saber resolver... Mal ou bem, mas ia. E vivia.
Hoje não. Hoje penso em tudo. As coisas ainda não aconteceram e eu já me coloco no "futuro", como se soubesse exactamente que já tinha previsto aquilo, como se soubesse exactamente o que fazer quando a situação chegasse. Mas não sei. E continuo a pensar demasiado e sinto que perco grandes momentos na vida, porque em vez de estar a vivê-los, estou a pensar como será o que ainda não vivi.
Ridículo! Eu sei. Mas não tenho conseguido evitar. Penso em mim. Penso nos outros. Volto a pensar nos outros e volto a mim outra vez. E não vivi. Pensei como gostaria de ter vivido determinado momento. Dou por mim até a pensar no que gostaria, ou não, de sentir. Como se fosse possível controlar o que sentimos. Sejam sensações ou sentimentos.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Balanços...



Não tenho o costume de fazer balanços de fim de ano. Nem tampouco resoluções de novo ano. Acredito que todos os dias são novas oportunidades. Acredito em mudanças, não por aquilo que o calendário dita, mas pelo que emerge em mim.
Não vivo alienada ao ponto de não olhar para trás e perceber o que aconteceu comigo em cada ano que passa. Nas pessoas que chegaram, algumas por bem, outras nem tanto, nas que se foram mas, principalmente nas que se mantiveram. Aquelas que, independentemente das nossas escolhas, sejam certas certas ou erradas, permanecem. Porque sim. Porque me querem muito e bem. Não posso deixar de pensar também em situações que me atrasaram, que me levaram aos confins de mim, que me doeram tanto que, houve momentos em que só me apeteceu "atirar a toalha ao chão". Não o fiz. Não o farei. Pelo contrário, por muito que me tenha abalado, estou aqui. Firme. A colar alguns pedaços. A tentar ressignificar os outros. Mas estou. E estarei.
Demorei algum tempo a perceber que, pasmem-se, sou incrível. E sou mesmo. E a minha maior ambição é não voltar a aceitar menos do que isso.
Se há resoluções para fazer, que sejam de vida e não de ano. Se há coisas para mudar que sejam porque são absolutamente necessárias em mim e para comigo. Que eu seja capaz de ser honesta comigo mesma e trocar o verbo. Trocar o adiar pelo concretizar. Trocar o "vou pensar" pelo "já fiz". Se irá acontecer durante o próximo ano? Não sei! Se vou lutar para que seja O ano? Definitivamente!
O mote é acreditar. Em mim. Por mim. Para mim.