segunda-feira, 2 de março de 2015

Não te escuto



Eu sei que me levas a passear ao domingo, que vamos juntos a casa dos teus pais, e muitas vezes é comigo que comentas as notícias dos nossos dias. Também sei e não esqueço que quando estive doente há uns tempos foste tu quem ficou ao meu lado, e como poderia não lembrar que todos os anos, no meu aniversário, fazes questão de me levar a jantar. Não posso nem devo deixar de apontar todas essas coisas que juntos já fizemos, e jurámos fazer para sempre. Pois: fizemos, falámos, partilhámos, isso tudo num passado que por ser passado já não existe. Tudo o que aconteceu deixou de ser real no preciso instante em que "foi" em vez de "ser". Hoje jantamos na cozinha ao som da tv, tu olhas-me já como quem não vê, e as nossas conversas não se encontram. Falamos horas sobre os outros, inventamos assunto sobre o estado do país e quanto ao resto: silêncio. Eu consigo ouvir o ruído de um vazio em cada palavra que me direccionais, percebo que chegam a mim embrulhadas numa indiferença que nem uma brisa de mar conseguem ter. Eu respondo como laranja sem sumo e juntos fazemos de conta que há tanto para perceber nos nossos discursos. Se estamos com amigos a coisa melhora, tu falas da vida maravilhosa que fazemos, eu confesso a sorte que tenho, e tudo ganha corpo num tenda circense cheia de público, animais e palhaços. Depois acaba, volta o silêncio, e não há mais conversas, beijos nem abraços. 


[Tristão de Andrade ]

1 comentário:

  1. Hummmmmm.... flagrantes da vida real.
    A vida desgasta o amor, se a gente não o reconstrói, não o reinventa...
    O amor é um território conquistado, permanentemente posto à prova e que precisa ser protegido, reconquistado..... precisa ser reconstruído.... !!!
    Pelos dois.....!!!

    ResponderEliminar

Vá... comenta, não te inibas.